quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Palavras

Que força a palavra tem. Que medo a palavra dá. A que se diz, a que se ouve.

A palavra manda. Uma palavra apenas basta pra fazer sorrir, pra fazer chorar, pra criar, pra matar. Basta!

Umas palavras a mais e o amor está lá, em prosa, verso, suado, cantado, chorado, gemido. Ah!

Meias palavras e, que pena, o que poderia ser, deixa de ser pelo não dito. Silêncio e eis a palavra presa na garganta. Solta!

Um som, uma música e a palavra se derrama pelas notas, delicia-se no vai e vem das ondas e encanta. Canta!

Tudo é palavra, o sentimento, o pensamento, o movimento, o entendimento. Fala!

Sem ela o que seria de nós, pobres criaturas perdidas num vale escuro, sem som, sem luz, sem medo, sem nada. Sem a palavra essencial.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Fluxo

Tem os olhos fixos naquele ponto.
Ponto morto. Ponto final.

Não! Grite, que grito é movimento,
Desalento, sortimento.
Mas grite.

Não. Um passo então
Talvez ao precipício,
Talvez à porta aberta.
Passo é caminho.

Não. Que é isso, afinal?
Respire. Você respira, não é?
Então está vivo.
Só falta um impulso.

Não. O que falta é outra matéria.
É a composição do etéreo
Com o suor e o sangue, quente,
Correndo para o mar.

Falta sentir o pulso,
Falta estar em curso,
Falta querer o susto,
Falta se ver imenso,
Falta dizer sim.

Quem viver

O parasita consome a vida. Estraga a vida, acaba com ela. Não é assim com as pragas na Natureza?Os gafanhotos, os pulgões, as larvas de sei lá que qualidade de bichos que devoram plantações, se alimentam da vida das plantas que, por vezes, parecem estar ali por isso.

A pimenteira tomada por pulgões na minha varanda. Não reclama, sofro eu com o ataque impiedoso desses minúsculos predadores que tomam cada centímetro do caule, das folhas, dos frutos. Ela parece não se importar, apenas cede à sede dos bárbaros que lhe sugam, sugam. Também, que pode ela contra essa horda de famintos famigerados?

Até que eu intervenho e tiro-lhes da fonte que os mantém vivos. É a lei do mais forte. Quem pode mais chora menos.

Salvei minha pimenteira dos pulgões. Quem me salvará agora?

Gramática

E tendo cantado,
gritado,
sentido,
perdido,
ganhado,
rido,
sonhado,
chorado,
gozado
Viu que tudo
ainda estava por vir.

Nada era findo,
porque tudo estava vindo e indo
O tempo todo

Só tinha de ver,
querer,
poder,
perceber,
estar,
desejar,
caminhar.
E a vida estava lá.

Ao vivo e em cores.

Vácuo

Tempo de silêncio. A despeito do barulho do mundo e dos ruídos da sua cabeça, o tempo é de silêncio. Embora tudo grite, dentro e fora, o som não sai. É uma espécie de vácuo, um não dizer, um eco surdo como se o cérebro fosse o fundo de um poço vazio. Silêncio.

Dizem que o silêncio vale ouro. Às vezes, como agora, o silêncio é nada.