quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Balanço

Vai, vem. Por que não?
Esgana a minha gana
Deixa na cama a insana
Nas paredes o eco
No chão o suor

E o melhor:
Fica perto, quente
Latente como uma noite de verão
Incerto na cadência do passo
Na respiração intensa, inconstante.

Perfeito no abraço.
E eterno num instante.
Vem, vai?

domingo, 12 de julho de 2009

Fusão

Eu preciso de poesia pra viver
Não acontece todo dia
Não, não é fácil, eu sei
É raro mesmo conseguir produzir a magia
Mas pode acontecer a qualquer momento
Se você estiver presente
Se ficar atento

Pode ser naquele instante
Da gana do sexo
Do abraço depois do sexo
Das respirações conjugadas
Da cabeça no peito
Das salivas misturadas
Da calma do sono
Do olhar safado, contente, afobafo, amedrontado
Do riso largo
Do sorriso sem graça, inquieto
Do prazer de estar perto
Da admiração de um encontro único, raro, especial

E aí, nessa hora, nós somos a Poesia
E tudo vale a pena
Cada momento mágico vale uma vida inteira

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Segredo

O corpo sente
A mão dormente
O peito ardente
A respiração urgente
O rosto quente
A mente não desmente
O que o corpo sente

O corpo sabe tudo de nós

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A bridge over trouble water

Deu um passo, dois, então parou. Continuava vendo o vulto pequeno acenando do outro lado da margem do rio, uns 100, talvez 200 metros distante. Mas era ele, tinha certeza. Ele acenava e chamava. Ela, com medo, tentava gritar que não tinha condições de atravessar o rio. A correnteza era muito forte, havia centenas de pedras no percurso. Não tinha jeito, ela nem nadava direito. Sabia nadar o básico, pra não morrer afogada.

Gritava, ele parecia não ouvir. Continuava acenando e chamando. “Por que ele não vem?”, pensava. “Ele é maior, mais forte, sabe nadar bem, talvez conseguisse passar a correnteza”. Ele nem se movia. Mas era tão convidativo. Mesmo à distância parecia tão bonito e tão ansioso por tê-la perto. “Não dá pra atravessar, eu não consigo, vem você!”, ela tentou mais uma vez.

Então ele começou a parecer mais distante aos olhos dela; agora ela olhava e quase não o via, mas sentia sua presença, o cheiro, como se ele estivesse a poucos centímetros. Deu mais um passo. Estava à beira do rio. Se saltasse não teria volta. Olhou pra frente, ele continuava lá, muito difuso; o cheiro, porém, mais presente do que nunca.

No ímpeto – e tudo nela era impulso – saltou. A correnteza estava muito forte, mais ainda do que parecia da margem. Engoliu água, achou que ia se afogar; continuou batendo os braços e pernas desordenadamente, desesperada. Tentou gritar por socorro, engoliu mais água. Quanto mais se debatia, mais parecia ser levada pela correnteza e ao fundo. “Não vai dar, pensou”. E mesmo ali, no desespero de se manter viva, ainda sentia a presença dele e até lhe pareceu, num repente, ver sua mão a alguns metros dela. Num esforço absurdo levantou a cabeça e teve certeza de vê-lo, agora quase nítido, perto, muito perto. “Vai dar, sim!”.

E foi, com pernas, braços, cabeça. Batendo-se toda nas pedras, sangrando, as forças quase se esvaindo. Foi, como um cão, guiada pelo cheiro dele e pela certeza da sua presença próxima. Inacreditavelmente, contra todas as possibilidades, ela tocou a margem oposta do rio.

Ele não estava lá. Cansada, sem ar, muito ferida, olhou em volta, procurando algum sinal dele. Nada. Só o cheiro ainda forte. Então ela o viu do outro lado, na outra margem, a 100, 200 metros de distância, acenando e chamando.

domingo, 15 de março de 2009

Depois de tudo

De repente uma gota e eis o oceano.
Jorrando dentro
Escorrendo pelas frestas
Saindo pelo ladrão

O que ele leva de mim
Não é mais do que me deixou
O sangue fervendo
A alma aquecida
Depois do inverno

Agora é madrugada aqui dentro
Estou molhada, úmida, gelada
O sangue coagulou, a alma esfriou
O inverno voltou

Calada
Com o coração nas mãos
Espero a primavera
Nada mais a fazer
Só me resta desejar o sol

quarta-feira, 11 de março de 2009

Luta

No vão, um dragão
No poço, no breu,
No meio de tudo:
Eu

E o dragão
Ele, fogo
Eu, ar
Combustão

No fim
Um pouco do tudo
Muito do nada
Tudo de mim

Semente
Cinza

Ainda ardente

quinta-feira, 5 de março de 2009

Dois

Paz.
Pra quê? Mais!
Mais o quê?
Prazer. Cadê?
Pé no chão!
Qual o quê: paixão!
Sem ação.
Sensação.
Força o berro. Eu quero!
Vai!
Vem.
Não vou. Não fico.
Não sou. Só sinto.
E permito.

Linha


Quatro lados iguais.
Quatro ângulos retos.
Pra onde ir não há além dali.
Quatro trajetos, todos iguais.
Quatro possibilidades ou uma apenas, quadruplicada?
Mais chances de acertar ou a mesma de errar.
Se o caminho não muda, mudamos?

Historinha

O despertador tocou pontualmente. Sete horas da manhã. Sem hesitar, levantou-se, arrumou os botões do pijama, meio soltos pela noite agitada. Depois do banho rápido – não mais do que cinco minutos, como a mãe sempre recomendara – parou em frente ao espelho e penteou cuidadosamente o cabelo grisalho. Um pouco de gel – bem pouco pra não ficar melado – manteria os fios no lugar por quase um dia inteiro.

Vestiu uma bermuda xadrez azul claro e uma camiseta com um tom de azul acima. Azul piscina, diria a mãe. Vestiu os óculos, conferiu se havia dinheiro na carteira e saiu. Antes, como todos os dias, um beijo no retrato da mãe em cima da estante da sala.

Um acaso o levou àquela rua desconhecida no caminho da praia. Foi atraído por um esquilo e o seguiu enquanto pôde, mas o bichinho fugiu assustado e ele se viu diante daquela cafeteria, dessas que têm livros dentro.

Entrou. Uma hora, duas, três. Já eram quase 11 horas quando ela apareceu. Ele ainda não havia conferido todo o acervo, estava quase no fim, mas parou para olhar pra ela. A agitação da noite voltou. Começou a salivar, coçou a cabeça, esfregou as mãos. Não sabendo o que dizer, disse:

- A senhorita gosta de livros? Se gosta – claro que gosta, não é, senão não estaria aqui – eu posso ajudá-la a escolher um bom livro.

- Gosto.

- Pois então, diga que tipo de livro a senhorita gosta? É senhorita não é? Pode dizer qualquer gênero que tenho resenhas na cabeça pra lhe informar.

- Obrigada. Estou só olhando.

- A senhorita iria gostar muito de um livro chamado Mrs. Dalloway, da escritora inglesa Virginia Wolf. Conhece? É muito interessante. Se gosta de poesia, recomendo A Rosa do Povo, do nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade.

- Obrigada.

- Diga lá, vamos. Eu já conferi todo o acervo, pode perguntar.

- Eu só vim tomar um café, obrigada.

- Quer companhia para o café, podemos nos conhecer melhor (será demais isso?), falar sobre livros...

- Obrigada, só vou tomar o café e ler o jornal.

- Ah, sim, pois não, é muito importante ficar bem informada. (Para a dona do café) - A senhora me vê os meus livros, por favor? Muito obrigado. Semana que vem venho buscar mais. (Para a moça) - Comprei 10 livros muito interessantes. Se a senhorita mora por aqui podemos nos encontrar para trocar alguns. A senhorita me empresta os seus e leva os meus.

- Não sou daqui, mas obrigada.

- Aceita um doce?

- Não obrigada.

- A senhorita vai recusar um doce? Aceite, é de coração, como os livros.

- Obrigada.

- Bom, vou andar na praia. Se a senhorita quiser caminhar comigo, conversar sobre livros e doces...

- Não, obrigada.

- Então, até logo. Bom dia.

Saiu relutante. Desistiu de ir até a praia. Voltou pra casa. Arrumou os livros cuidadosamente na estante, sob o retrato da mãe. Beijou o retrato novamente, tirou os óculos, tirou a roupa, dobrou e colocou as duas peças sobre a cadeira do quarto. Tomou outro banho de cinco minutos. Penteou cuidadosamente o cabelo, mas não colocou gel. Vestiu o pijama e deitou-se. Teria o sono agitado novamente.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Palavras

Que força a palavra tem. Que medo a palavra dá. A que se diz, a que se ouve.

A palavra manda. Uma palavra apenas basta pra fazer sorrir, pra fazer chorar, pra criar, pra matar. Basta!

Umas palavras a mais e o amor está lá, em prosa, verso, suado, cantado, chorado, gemido. Ah!

Meias palavras e, que pena, o que poderia ser, deixa de ser pelo não dito. Silêncio e eis a palavra presa na garganta. Solta!

Um som, uma música e a palavra se derrama pelas notas, delicia-se no vai e vem das ondas e encanta. Canta!

Tudo é palavra, o sentimento, o pensamento, o movimento, o entendimento. Fala!

Sem ela o que seria de nós, pobres criaturas perdidas num vale escuro, sem som, sem luz, sem medo, sem nada. Sem a palavra essencial.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Fluxo

Tem os olhos fixos naquele ponto.
Ponto morto. Ponto final.

Não! Grite, que grito é movimento,
Desalento, sortimento.
Mas grite.

Não. Um passo então
Talvez ao precipício,
Talvez à porta aberta.
Passo é caminho.

Não. Que é isso, afinal?
Respire. Você respira, não é?
Então está vivo.
Só falta um impulso.

Não. O que falta é outra matéria.
É a composição do etéreo
Com o suor e o sangue, quente,
Correndo para o mar.

Falta sentir o pulso,
Falta estar em curso,
Falta querer o susto,
Falta se ver imenso,
Falta dizer sim.

Quem viver

O parasita consome a vida. Estraga a vida, acaba com ela. Não é assim com as pragas na Natureza?Os gafanhotos, os pulgões, as larvas de sei lá que qualidade de bichos que devoram plantações, se alimentam da vida das plantas que, por vezes, parecem estar ali por isso.

A pimenteira tomada por pulgões na minha varanda. Não reclama, sofro eu com o ataque impiedoso desses minúsculos predadores que tomam cada centímetro do caule, das folhas, dos frutos. Ela parece não se importar, apenas cede à sede dos bárbaros que lhe sugam, sugam. Também, que pode ela contra essa horda de famintos famigerados?

Até que eu intervenho e tiro-lhes da fonte que os mantém vivos. É a lei do mais forte. Quem pode mais chora menos.

Salvei minha pimenteira dos pulgões. Quem me salvará agora?

Gramática

E tendo cantado,
gritado,
sentido,
perdido,
ganhado,
rido,
sonhado,
chorado,
gozado
Viu que tudo
ainda estava por vir.

Nada era findo,
porque tudo estava vindo e indo
O tempo todo

Só tinha de ver,
querer,
poder,
perceber,
estar,
desejar,
caminhar.
E a vida estava lá.

Ao vivo e em cores.

Vácuo

Tempo de silêncio. A despeito do barulho do mundo e dos ruídos da sua cabeça, o tempo é de silêncio. Embora tudo grite, dentro e fora, o som não sai. É uma espécie de vácuo, um não dizer, um eco surdo como se o cérebro fosse o fundo de um poço vazio. Silêncio.

Dizem que o silêncio vale ouro. Às vezes, como agora, o silêncio é nada.