terça-feira, 18 de novembro de 2008

Ponto de partida

Inquietude, segundo o dicionário Houaiss, é desassossego, ato de preocupar-se com o que está além dos seus conhecimentos, ansiedade, efervescência, excitação, etc... Inquietude é o que nos move. Não o corpo, mas o que faz os neurônios realizarem mais sinapses. O que mexe com as suas entranhas.

O frio na barriga, o medo de escuro, ou de assalto, ou de que aquela pessoa nunca olhe pra você. Inquieta, incomoda, desassossega. Assim como o desejo de viajar, de conhecer outras pessoas, outros lugares, outras emoções ferve em você. Como também ferve o seu sangue, de raiva, ou de tesão, quando você quer e não tem.

Quando você vê que tanta gente quer e não tem e que isso nada tem a ver com desejo, mas com necessidade. Ou quando você pára pra pensar em física quântica e sente paúra só de imaginar que não passa de um amontoado de átomos.

O fim, o começo, o meio. Em que parte das coisas você realmente se movimenta?

Romance

Aconteceu do nada. Um constrangimento, que foi crescendo e virando outra coisa, um tipo de vontade. Já se conheciam há bastante tempo, podia se dizer até que eram meio amigos; não totalmente porque tinham turmas diferentes e, sabe como é, no tempo em que eram crianças havia um separatismo muito maior entre meninos e meninas. Só esporadicamente jogavam queimada juntos. Quer dizer, um contra o outro, porque o jogo era normalmente de meninos contra meninas.

O tempo passou e a presença um do outro nunca os incomodou; cruzavam-se na escola, depois pelo bairro e, mais tarde em festas de amigos comuns. Conversavam banalidades, a loucura que é a vida, como o tempo passa rápido e como os tempos mudaram desde que eram crianças.

- O Luciano engordou demais depois que casou, né?
- É, bem que eu falei que esse negócio de casar fazia mal pra saúde.
- Não sei se é o casamento não, você também tem de tomar cuidado, tem uma barriguinha aparecendo aí..
- É charme, como essas marquinhas que você faz no rosto quando ri.
- Engraçadinho.

Ficavam nessas provocações até que caíam na risada. Nada até então tinha dado qualquer sinal de que algo havia mudado. E nem eles mesmos saberiam dizer, depois de tudo, como aconteceu.

Mas aconteceu. Estavam ali, numa das festas de amigos e numa conversa sobre como o mundo estava diferente e ninguém mais jogava bola na rua quando o assunto acabou. Ou acabou a necessidade de procurar assunto.

Silêncio. Mais que silêncio, um estado de suspensão. E o constrangimento. Ele ria, ela ria, um riso sem graça, depois uma gargalhada sem motivo, que morria em si e voltava a ser o riso sem graça.

E eles se olharam pela primeira vez em vinte anos. Nada mais tinha de ser dito, estava tudo ali, no olhar, no silêncio.

Sabiam o que ia acontecer. Sabiam também que seria o fim dos encontros casuais, amigáveis e que nunca mais iriam comentar os velhos tempos.

Mas tinham de seguir. Um contra o outro, como nos tempos em que jogavam queimada. Mas o jogo agora era outro.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Paralelas

Eu olho pra ela e até dói. O jeito de andar, de falar cinqüenta coisas ao mesmo tempo, como se tivesse só cinco minutos de vida. Parece mesmo que a vida dela acontece em ciclos de cinco minutos. Ou de minuto em minuto em certos períodos. Ela é frenética, mas é soturna também. E fica ali testando a minha capacidade de absorver o que ela é, ora me dando uma risada deliciosa, ora um grito insuportável, ora um choro doído.

Dói em mim também. Assim como o riso me faz rir e chorar. Porque eu quero. Mas eu não sei ao certo se o meu desejo é dela ou daquilo que vem dela. Acho às vezes que eu sou um pouco vampiro, tentando sugar o sangue dela. Tê-la dentro de mim sem ter de tê-la por fora.

Não pode. Assim não pode, ela me diz. Se me quer, tem de ser por inteiro.

Quer mais inteiro que isso? Eu sinto que ela é uma extensão de mim, que há um fio invisível entre nós dois. Ninguém me ouve como ela, nem diz aquilo que eu preciso ouvir como ela diz; ninguém adivinha meus pensamentos nem fala tanta bobagem quando quer me provocar. Ninguém está do meu lado incomensuravelmente, apesar de tudo. Ela está. Ela é.

Então somos inteiros, porque não nunca fui mais que isso pra ninguém. Se existe amor, isso é o mais perto que cheguei dele. Mas ela quer mais, quer a presença, que ser constante, quer a rotina. Quer andar de mãos dadas na praça, quer um beijo no meio da rua, quer o bom dia todos os dias.

Não tenho, não posso, não sei fazer isso. Desse ponto não dá pra passar. Prefiro então só olhar pra ela. Assistir a vida dela acontecendo.

Eu perco muito do meu suprimento, do que me alimenta. Ela perde também, menos que eu, mas sabe como resolver tudo. A vida dela se renova a cada cinco minutos.

Não posso chegar muito perto, dói nela, eu sei, mas dói muito mais em mim.

Crash

Primeiro veio a dor. Ou será que foi o barulho? Na verdade, foi uma mistura das duas coisas: uma dor lancinante misturada com um barulho ensurdecedor de ferro, concreto. O barulho metálico junto com o grito do pneu se arrastando no asfalto e, de repente, o silêncio. Aí você ouviu um burburinho, de longe, e nem parecia que era você ali. Tudo tinha uma atmosfera de sonho.

Morri? Você pensa por um instante. Mas será que quem morre tem consciência? Não, acho que não morri. E então os vestígios da realidade lhe mostram que não se trata de sonho. Você abre os olhos e vê sangue, vidros, ferro retorcido e parte de você. Alguém fala alguma coisa quando você tenta se mexer. Deve ser alguma orientação do tipo: não se mexa, você pode lesionar a coluna, espere até o resgate chegar.

Seja o que for você não obedece muito. A primeira coisa que fez foi mexer o dedinho do pé. Alguém esperaria o resgate pra ver se o dedinho do pé mexe?

Enquanto está ali, esperando o resgate e verificando por conta própria os seus sinais vitais – bom, os dedos estão todos aqui, mas tem um monte dê sangue saindo sei lá de onde – você percebe que o seu corpo, a sua carne, têm a mesma medida e a mesma vulnerabilidade que aquele monte de ferro. Não fosse a consciência, o que seria do seu corpo avariado? Se não tivesse conserto, provavelmente iria para um lixão apodrecer e virar comida de rato.

Mas você está bem consciente. Na mesma medida das suas avarias. Tem uma descarga violenta de adrenalina na sua corrente sanguínea fazendo com que você pense com uma rapidez alucinante. Não tem droga sintética mais poderosa do que essa e é bom estar drogada numa hora dessas, ainda mais se a droga sai de você mesma. Porque é quando você está tomada pela adrenalina que consegue prestar atenção no que torna real a diferença entre você e o ferro retorcido: a solidariedade.

Junto com a curiosidade mórbida das pessoas que se amontoam pra ver se você está aos pedaços, há um sentimento que se destaca de alguns e vem em sua direção. Coisas simples, uma mão que segura a sua e que acompanha uma voz dizendo que está tudo bem, alguém secando o sangue do seu rosto e sorrindo um sorriso acalentador.

Não. Minto, não são coisas simples, você sabe. É até bem difícil ter tanto desse sentimento num dia só. Mas você teve. O resgate chegou e trouxe um saco cheio de solidariedade. E você até riu! Doía tudo, mas você riu. Imagina só, você não chorou, não se lamentou, só ficou ali rindo e brincando com aquelas pessoas que estavam salvando a sua vida. Será que eles fazem isso com todo mundo?

Devem fazer, sim, são anjos por profissão, assim como os médicos que recebem você com carinho no hospital público, ou a policial que ficou do seu lado quando você estava com medo de morrer, de ficar cega, de ficar paralítica.

Nada disso aconteceu e, ao contrário do carro, você não deu perda total. Saiu cambaleando do hospital, com muito pra consertar no seu corpo avariado, mas totalmente alimentada daquilo que faz a diferença entre você e o nada.

Você é nesse momento - e, graças a esse momento, pra toda a vida - um milagre caminhando.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Carpe Diem


E seu eu morresse agora? Acordou com a pergunta martelando na cabeça. Não que nunca tivesse pensado nisso, pensava sim. Mais quando era adolescente, numa necessidade meio mórbida de se imaginar sem vida num caixão com os outros chorando em volta.

Será que era isso? Puramente uma morbidez infantil ou carência, medo, solidão?

Estava ali na cama e só conseguia imaginar como seria se morresse naquele minuto. E pensava tudo: como seria a comunicação da sua morte para os parentes, amigos próximos, amigos distantes. A reação de cada um; o choro convulsivo de um misturado ao choque de outro; o desespero e o inconformismo daqueles que viam nela um exemplo de vivacidade. As pessoas comentando como ela era inteligente, bonita, compreensiva, capaz, com uma vida inteira pela frente.

Tinha quase um prazer em pensar o quanto as pessoas sofreriam pela sua morte. Imaginava se o velório estaria lotado e como ela estaria vestida. Será que lhe colocariam uma roupa que ficasse bem? E maquiagem, será que fariam pelo menos uma maquiagem leve, pra ela não ficar feia, com as olheiras horrorosas que ela detestava? Tinha quilos de corretivo em casa, precisava avisar alguém disso. Justo ela, que odiava velório e que não chegava perto de um caixão por nada.

Nesse devaneio só não lembrou de pensar como seria a vida depois. Sim, depois da missa de sétimo dia, depois que ela fosse substituída no trabalho, que suas roupas tivessem sido doadas, que seu cachorro se acostumasse à nova casa, que seus amigos deixassem de falar dela em todos os encontros. Depois que sua família voltasse a sorrir.

Estava carente mesmo. O melhor de estar viva é que sempre se pode fazer alguma coisa.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sonhar não custa nada

Quero ir para o “Incrível mundo onde não existem problemas”. Não conhece? Explico. Conhecido pela sigla IMONEP, trata-se de um mundo imaginário, óbvio, onde tudo segue um curso natural, sem traumas, chiliques, melindres.

No IMONEP, você chega ao trabalho de manhã e as pessoas lhe dizem bom dia. E sorriem. Não gritam com você nem lhe cobram o atraso naquele relatório que você só não entregou porque estava ocupado atendendo aos chiliques daquele cliente estratégico que, por sua vez, se for perdido, leva sua empresa à bancarrota. Aliás, no IMONEP não há clientes estratégicos. Sequer há clientes. Ah, que maravilha um mundo sem clientes.

Imagine, então, você chegando em casa e ninguém reclamando que você está atrasado, que não foi ao mercado, que precisa pagar a conta do gás, que a escola das crianças está atrasada, que a diretora ligou pra dizer que Luiz Maurício levou a terceira advertência na semana e que você precisa tomar uma providência, que você tem de ir àquela festa chata com gente mais chata ainda, que... Chama o IMONEP!

O IMONEP resolve tudo. Lá você ouve a música que quer, no volume que desejar, faz o que gosta e, pasme, com prazer. Respira, lê, dorme, dança, canta, ri alto e ninguém lhe aporrinha com as chatices do IMDPENU – Incrível mundo das pentelhações e necessidades urgentes.

No IMONEP você não precisa ficar equilibrando pratos e arrumando uma desculpa e uma solução para cada problema de cada criatura vivente ao seu redor. Você pode simplesmente aproveitar o seu tempo com coisas mais importantes, como comer um brigadeiro delicioso ou dar uma caminhada na praia.

Pena que o IMONEP seja tão difícil de acessar. O telefone toca. Um quer seu colo, o outro manda você para o inferno e mais um aparece pra lhe cobrar suas obrigações. Olha aí o IMDPENU se intrometendo no seu sonho...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Espelho, espelho meu...

Impossible is nothing, leu na camisa de uma pessoa que passava. Bom, impossível, impossível, talvez nada seja mesmo. Mas achar também que a vida é como se mostra no comercial da Adidas, aí já é um pouco demais.

Foi uma criança otimista. Era mirrado, tinha bronquite e todos os tipos de alergia que se pode detectar naquele maldito teste do braço. Jogar bola era um martírio. Mas ele ia. Bom, tentava, porque os meninos logo o colocavam pra escanteio. Literalmente. Mas, otimista, não desistia. Tentava jogar taco, empinar pipa, descer a ladeira de carrinho de rolimã, tudo sem grande sucesso, ou melhor, com generosas doses de fracasso. Mas numa coisa era imbatível: a brincadeira de esconde-esconde. Sabia se esconder como ninguém. Pequeno, se enfiava em qualquer buraco e ficava ali, quietinho, até a criançada quase desistir de tanto procurar. Aí, saía do esconderijo, de fininho, e ia até o pique. Era quase infalível.

Foi nessa época que descobriu o talento para a estratégia. Que lhe foi muito útil na adolescência quando, ainda magro, alérgico e com crises terríveis de bronquite – a bombinha sempre na mão – ele tentava, em vão, dançar com as meninas nas domingueiras intermináveis. Com um agravante: as espinhas, que brotavam nele como se sua pele fosse um jardim e elas as flores.

Diante do quadro desanimador, só muita lábia pra desviar a atenção das meninas dos garotos bonitos, fortes, populares. Popular ele era. E como. Lia muito, de Fernando Pessoa a Nietzsche, e sabia bem como lidar com as palavras. Era o melhor amigo das meninas, ensinava a escrever poesias, falava tudo o que elas adoravam ouvir. Daí para o bote era um pulinho.

E assim se tornou um grande conquistador. O seu hobby era o desafio. Conseguir aquilo que o mundo pudesse duvidar de que ele seria capaz porque por fora não se dava nada por ele. Conquistava tudo, conseguia tudo: mulheres, dinheiro, status, poder, amigos. Aos montes.

Tinha tudo o que uma criatura podia querer pra ser feliz. Só a si mesmo não tinha podido conquistar. Não sabia que armas usar para se convencer de que era o melhor. Pois o fato é que não era. Não passava de uma farsa, que uma rápida olhada no espelho revelaria. Por isso não olhava. O espelho era seu inimigo. Cruel, certeiro. O único que tivera realmente na vida. E que podia destrui-lo. Mas não seria agora.

Monossílabos

1 - Ei...
2 - E aí?
1 - Ah, sei lá.
2 - Quer?
1 - Não sei.
2 - Por quê?
1 - Humm...
2 - Vem.
1 - Já?
2 - Já.
1 - É? Ai.
2 - Ah, vai...
1 - E se...
2 - O quê?
1 - Dá pra...
2 - Dá sim.
1 - É?
2 - É. Vem, vai.
1 – Hummm... (pausa)
2 - E?
1 – (suspiro) Tá, vou.
2 - É? Oba!
1 - É, mas e se...
2 - Tá, eu sei.
1 - Lá tem...
2 - Tem sim.
1 - Tá... (pausa)
2 – (impaciente) E aí, vai ou não vai?
1 - Ihhh..
2 - Quê?
1 - É assim, é?
2 - Ah, que é isso...
1 – (ar desconfiado) Hummm. Sei não.
2 - Ai, ai. Tá bom. Vem aqui, vai...
1 – Ah, bom... Assim, sim.
2 - Bom...hã.. Vem?
1 - Já vou.
2 - Tá...
1 - Até já...(sai)
2 - Até. To aqui hein? (pausa) Uhu!!!!

À beira de um abismo

2 está. 1 chega. O lugar é conhecido. A dor também.

1 - Oi
2 - ...
1 - Faz tempo que você está aqui?
2 - Eu já vou embora.
1 - Não é pra você sair. Pode ficar. Eu só tava puxando assunto.
2 - Pra quê?
1 - Não sei. Achei o silêncio constrangedor.
2 - Não, constrangedora é a presença.
1 - A minha? Você não queria me ver, é isso? Até quando você ia fugir de mim?
2 - Até você deixar de existir.
1 - Quer que eu morra?
2 - Quero. Pelo menos o que há de você em mim.
1 - Será que ainda tem alguma coisa de mim em você? Não, não tem. Não vejo nada aí. Você quer me machucar, você conseguiu.
2 - ...
1 - Fala comigo.
2 - ....
1 - Por favor, fala comigo.
2 -...
1 - Por que você não vai pro inferno, então?
2 - Não posso ir pra um lugar de onde eu nunca saí.
1 - Foi só isso então que sobrou, a lembrança do inferno. Isso é tudo que ficou?
2 - Foi o que você me deixou.
1 - Não, não foi. Deixei muito do melhor de mim em você. Meu cheiro, meu gosto. O que é, esqueceu? Mentira! Não esqueceu nada. E é por isso que você não me encara, porque não pode esquecer, não consegue, não quer!
2 - Addicted.
1 - Quê?
2 - Eu. Sou addicted. Sabe o que é? É uma pessoa que não consegue viver sem uma substância, uma droga. É dependente daquilo. E aquilo faz mal, aquilo fere, aquilo acaba com a sua saúde física e mental, mas a pessoa não pode, não consegue, não quer ficar sem aquilo. Addicted.
1 - O que você chama de vício eu chamo de amor. Só que acabou. Tudo acaba não é? A gente se amou sim, e muito. Fomos muito felizes juntos, eu não sonhei isso, oras! E agora você vem me dizer que viveu num inferno? Uma ova! Por que as pessoas têm de se odiar quando acaba o amor?
2 - O ódio é o resíduo do amor. É o que sobra.
1 – Não. Não venha botar em mim a culpa pelo seu ódio. O ódio é seu produto não do amor que você viveu comigo. Desse não sobrou nada. Não se preocupe, não vou mais alimentar seu ódio, vou embora.
2 – Se não sobrou nada, por que você apareceu?
1 – Não sei. Talvez eu também tenha certa dose de vício. No que tinha de amor, não no ódio.

1 sai. 2 continua onde está. Não tem pra onde ir. O único caminho já havia sido trilhado.