Primeiro veio a dor. Ou será que foi o barulho? Na verdade, foi uma mistura das duas coisas: uma dor lancinante misturada com um barulho ensurdecedor de ferro, concreto. O barulho metálico junto com o grito do pneu se arrastando no asfalto e, de repente, o silêncio. Aí você ouviu um burburinho, de longe, e nem parecia que era você ali. Tudo tinha uma atmosfera de sonho.
Morri? Você pensa por um instante. Mas será que quem morre tem consciência? Não, acho que não morri. E então os vestígios da realidade lhe mostram que não se trata de sonho. Você abre os olhos e vê sangue, vidros, ferro retorcido e parte de você. Alguém fala alguma coisa quando você tenta se mexer. Deve ser alguma orientação do tipo: não se mexa, você pode lesionar a coluna, espere até o resgate chegar.
Seja o que for você não obedece muito. A primeira coisa que fez foi mexer o dedinho do pé. Alguém esperaria o resgate pra ver se o dedinho do pé mexe?
Enquanto está ali, esperando o resgate e verificando por conta própria os seus sinais vitais – bom, os dedos estão todos aqui, mas tem um monte dê sangue saindo sei lá de onde – você percebe que o seu corpo, a sua carne, têm a mesma medida e a mesma vulnerabilidade que aquele monte de ferro. Não fosse a consciência, o que seria do seu corpo avariado? Se não tivesse conserto, provavelmente iria para um lixão apodrecer e virar comida de rato.
Mas você está bem consciente. Na mesma medida das suas avarias. Tem uma descarga violenta de adrenalina na sua corrente sanguínea fazendo com que você pense com uma rapidez alucinante. Não tem droga sintética mais poderosa do que essa e é bom estar drogada numa hora dessas, ainda mais se a droga sai de você mesma. Porque é quando você está tomada pela adrenalina que consegue prestar atenção no que torna real a diferença entre você e o ferro retorcido: a solidariedade.
Junto com a curiosidade mórbida das pessoas que se amontoam pra ver se você está aos pedaços, há um sentimento que se destaca de alguns e vem em sua direção. Coisas simples, uma mão que segura a sua e que acompanha uma voz dizendo que está tudo bem, alguém secando o sangue do seu rosto e sorrindo um sorriso acalentador.
Não. Minto, não são coisas simples, você sabe. É até bem difícil ter tanto desse sentimento num dia só. Mas você teve. O resgate chegou e trouxe um saco cheio de solidariedade. E você até riu! Doía tudo, mas você riu. Imagina só, você não chorou, não se lamentou, só ficou ali rindo e brincando com aquelas pessoas que estavam salvando a sua vida. Será que eles fazem isso com todo mundo?
Devem fazer, sim, são anjos por profissão, assim como os médicos que recebem você com carinho no hospital público, ou a policial que ficou do seu lado quando você estava com medo de morrer, de ficar cega, de ficar paralítica.
Nada disso aconteceu e, ao contrário do carro, você não deu perda total. Saiu cambaleando do hospital, com muito pra consertar no seu corpo avariado, mas totalmente alimentada daquilo que faz a diferença entre você e o nada.
Você é nesse momento - e, graças a esse momento, pra toda a vida - um milagre caminhando.