terça-feira, 23 de dezembro de 2008

De cor

No fundo, tudo é desejo
Do abraço,
Do beijo,
Do carinho,
De que tudo esteja bem

No fundo, tudo é desejo
De estar por perto
De fazer o que é certo
De não ter medo de perder

No fundo, tudo é desejo
Do Pôr-do-Sol em Noronha
Da lua cheia em Paris
De viajar o mundo inteiro
De ter tudo o que se quis

No fundo, tudo é desejo
De que as pessoas que eu amo sejam eternas
De que eu seja pra elas o que são pra mim:
Uma ponte segura sobre o rio turbulento.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Para Christina

Ela partiu. O cheiro de flor, a sala fria, os pés das pessoas balançando, os cochichos, o entra e sai de gente e a caixa no meio da sala com a imagem dela estática. Sim, ela partiu. Mesmo assim eu tenho a sensação de que vou ouvir a voz dela a qualquer instante. Olho pra ela e de repente me parece que vi um sorriso. Ela sorriu pra mim ou são os meus olhos sorrindo para ela?

Em meio aos comentários de como ela era caridosa, boa, querida; em meio aos tantos abraços e sentimentos, pêsames, uma frase me parece a mais adequada para o momento: “O céu está em festa hoje”.

Fico ali, namorando aquela imagem e lembrando de tudo o que eu me tornei por causa dela. Ah, se não fosse ela cuidar de mim, me dar lanche, me acordar pra ir à escola, me levar pra passear. Se não fossem as lambidas nas travessas dos bolos, se não fossem os mimos, se não fosse o cuidado, o carinho, a preocupação constante.

Ela me deu tanto, mesmo sem saber, me ensinou tantas coisas. E eu dei tão pouco, tão menos do que poderia e do que ela merecia. Por isso hoje eu dou meu sorriso, minha gratidão e a certeza de que ela foi imprescindível e será pra sempre inesquecível.

Vai, Christininha, aproveita que a festa é sua.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Ponto de partida

Inquietude, segundo o dicionário Houaiss, é desassossego, ato de preocupar-se com o que está além dos seus conhecimentos, ansiedade, efervescência, excitação, etc... Inquietude é o que nos move. Não o corpo, mas o que faz os neurônios realizarem mais sinapses. O que mexe com as suas entranhas.

O frio na barriga, o medo de escuro, ou de assalto, ou de que aquela pessoa nunca olhe pra você. Inquieta, incomoda, desassossega. Assim como o desejo de viajar, de conhecer outras pessoas, outros lugares, outras emoções ferve em você. Como também ferve o seu sangue, de raiva, ou de tesão, quando você quer e não tem.

Quando você vê que tanta gente quer e não tem e que isso nada tem a ver com desejo, mas com necessidade. Ou quando você pára pra pensar em física quântica e sente paúra só de imaginar que não passa de um amontoado de átomos.

O fim, o começo, o meio. Em que parte das coisas você realmente se movimenta?

Romance

Aconteceu do nada. Um constrangimento, que foi crescendo e virando outra coisa, um tipo de vontade. Já se conheciam há bastante tempo, podia se dizer até que eram meio amigos; não totalmente porque tinham turmas diferentes e, sabe como é, no tempo em que eram crianças havia um separatismo muito maior entre meninos e meninas. Só esporadicamente jogavam queimada juntos. Quer dizer, um contra o outro, porque o jogo era normalmente de meninos contra meninas.

O tempo passou e a presença um do outro nunca os incomodou; cruzavam-se na escola, depois pelo bairro e, mais tarde em festas de amigos comuns. Conversavam banalidades, a loucura que é a vida, como o tempo passa rápido e como os tempos mudaram desde que eram crianças.

- O Luciano engordou demais depois que casou, né?
- É, bem que eu falei que esse negócio de casar fazia mal pra saúde.
- Não sei se é o casamento não, você também tem de tomar cuidado, tem uma barriguinha aparecendo aí..
- É charme, como essas marquinhas que você faz no rosto quando ri.
- Engraçadinho.

Ficavam nessas provocações até que caíam na risada. Nada até então tinha dado qualquer sinal de que algo havia mudado. E nem eles mesmos saberiam dizer, depois de tudo, como aconteceu.

Mas aconteceu. Estavam ali, numa das festas de amigos e numa conversa sobre como o mundo estava diferente e ninguém mais jogava bola na rua quando o assunto acabou. Ou acabou a necessidade de procurar assunto.

Silêncio. Mais que silêncio, um estado de suspensão. E o constrangimento. Ele ria, ela ria, um riso sem graça, depois uma gargalhada sem motivo, que morria em si e voltava a ser o riso sem graça.

E eles se olharam pela primeira vez em vinte anos. Nada mais tinha de ser dito, estava tudo ali, no olhar, no silêncio.

Sabiam o que ia acontecer. Sabiam também que seria o fim dos encontros casuais, amigáveis e que nunca mais iriam comentar os velhos tempos.

Mas tinham de seguir. Um contra o outro, como nos tempos em que jogavam queimada. Mas o jogo agora era outro.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Paralelas

Eu olho pra ela e até dói. O jeito de andar, de falar cinqüenta coisas ao mesmo tempo, como se tivesse só cinco minutos de vida. Parece mesmo que a vida dela acontece em ciclos de cinco minutos. Ou de minuto em minuto em certos períodos. Ela é frenética, mas é soturna também. E fica ali testando a minha capacidade de absorver o que ela é, ora me dando uma risada deliciosa, ora um grito insuportável, ora um choro doído.

Dói em mim também. Assim como o riso me faz rir e chorar. Porque eu quero. Mas eu não sei ao certo se o meu desejo é dela ou daquilo que vem dela. Acho às vezes que eu sou um pouco vampiro, tentando sugar o sangue dela. Tê-la dentro de mim sem ter de tê-la por fora.

Não pode. Assim não pode, ela me diz. Se me quer, tem de ser por inteiro.

Quer mais inteiro que isso? Eu sinto que ela é uma extensão de mim, que há um fio invisível entre nós dois. Ninguém me ouve como ela, nem diz aquilo que eu preciso ouvir como ela diz; ninguém adivinha meus pensamentos nem fala tanta bobagem quando quer me provocar. Ninguém está do meu lado incomensuravelmente, apesar de tudo. Ela está. Ela é.

Então somos inteiros, porque não nunca fui mais que isso pra ninguém. Se existe amor, isso é o mais perto que cheguei dele. Mas ela quer mais, quer a presença, que ser constante, quer a rotina. Quer andar de mãos dadas na praça, quer um beijo no meio da rua, quer o bom dia todos os dias.

Não tenho, não posso, não sei fazer isso. Desse ponto não dá pra passar. Prefiro então só olhar pra ela. Assistir a vida dela acontecendo.

Eu perco muito do meu suprimento, do que me alimenta. Ela perde também, menos que eu, mas sabe como resolver tudo. A vida dela se renova a cada cinco minutos.

Não posso chegar muito perto, dói nela, eu sei, mas dói muito mais em mim.

Crash

Primeiro veio a dor. Ou será que foi o barulho? Na verdade, foi uma mistura das duas coisas: uma dor lancinante misturada com um barulho ensurdecedor de ferro, concreto. O barulho metálico junto com o grito do pneu se arrastando no asfalto e, de repente, o silêncio. Aí você ouviu um burburinho, de longe, e nem parecia que era você ali. Tudo tinha uma atmosfera de sonho.

Morri? Você pensa por um instante. Mas será que quem morre tem consciência? Não, acho que não morri. E então os vestígios da realidade lhe mostram que não se trata de sonho. Você abre os olhos e vê sangue, vidros, ferro retorcido e parte de você. Alguém fala alguma coisa quando você tenta se mexer. Deve ser alguma orientação do tipo: não se mexa, você pode lesionar a coluna, espere até o resgate chegar.

Seja o que for você não obedece muito. A primeira coisa que fez foi mexer o dedinho do pé. Alguém esperaria o resgate pra ver se o dedinho do pé mexe?

Enquanto está ali, esperando o resgate e verificando por conta própria os seus sinais vitais – bom, os dedos estão todos aqui, mas tem um monte dê sangue saindo sei lá de onde – você percebe que o seu corpo, a sua carne, têm a mesma medida e a mesma vulnerabilidade que aquele monte de ferro. Não fosse a consciência, o que seria do seu corpo avariado? Se não tivesse conserto, provavelmente iria para um lixão apodrecer e virar comida de rato.

Mas você está bem consciente. Na mesma medida das suas avarias. Tem uma descarga violenta de adrenalina na sua corrente sanguínea fazendo com que você pense com uma rapidez alucinante. Não tem droga sintética mais poderosa do que essa e é bom estar drogada numa hora dessas, ainda mais se a droga sai de você mesma. Porque é quando você está tomada pela adrenalina que consegue prestar atenção no que torna real a diferença entre você e o ferro retorcido: a solidariedade.

Junto com a curiosidade mórbida das pessoas que se amontoam pra ver se você está aos pedaços, há um sentimento que se destaca de alguns e vem em sua direção. Coisas simples, uma mão que segura a sua e que acompanha uma voz dizendo que está tudo bem, alguém secando o sangue do seu rosto e sorrindo um sorriso acalentador.

Não. Minto, não são coisas simples, você sabe. É até bem difícil ter tanto desse sentimento num dia só. Mas você teve. O resgate chegou e trouxe um saco cheio de solidariedade. E você até riu! Doía tudo, mas você riu. Imagina só, você não chorou, não se lamentou, só ficou ali rindo e brincando com aquelas pessoas que estavam salvando a sua vida. Será que eles fazem isso com todo mundo?

Devem fazer, sim, são anjos por profissão, assim como os médicos que recebem você com carinho no hospital público, ou a policial que ficou do seu lado quando você estava com medo de morrer, de ficar cega, de ficar paralítica.

Nada disso aconteceu e, ao contrário do carro, você não deu perda total. Saiu cambaleando do hospital, com muito pra consertar no seu corpo avariado, mas totalmente alimentada daquilo que faz a diferença entre você e o nada.

Você é nesse momento - e, graças a esse momento, pra toda a vida - um milagre caminhando.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Carpe Diem


E seu eu morresse agora? Acordou com a pergunta martelando na cabeça. Não que nunca tivesse pensado nisso, pensava sim. Mais quando era adolescente, numa necessidade meio mórbida de se imaginar sem vida num caixão com os outros chorando em volta.

Será que era isso? Puramente uma morbidez infantil ou carência, medo, solidão?

Estava ali na cama e só conseguia imaginar como seria se morresse naquele minuto. E pensava tudo: como seria a comunicação da sua morte para os parentes, amigos próximos, amigos distantes. A reação de cada um; o choro convulsivo de um misturado ao choque de outro; o desespero e o inconformismo daqueles que viam nela um exemplo de vivacidade. As pessoas comentando como ela era inteligente, bonita, compreensiva, capaz, com uma vida inteira pela frente.

Tinha quase um prazer em pensar o quanto as pessoas sofreriam pela sua morte. Imaginava se o velório estaria lotado e como ela estaria vestida. Será que lhe colocariam uma roupa que ficasse bem? E maquiagem, será que fariam pelo menos uma maquiagem leve, pra ela não ficar feia, com as olheiras horrorosas que ela detestava? Tinha quilos de corretivo em casa, precisava avisar alguém disso. Justo ela, que odiava velório e que não chegava perto de um caixão por nada.

Nesse devaneio só não lembrou de pensar como seria a vida depois. Sim, depois da missa de sétimo dia, depois que ela fosse substituída no trabalho, que suas roupas tivessem sido doadas, que seu cachorro se acostumasse à nova casa, que seus amigos deixassem de falar dela em todos os encontros. Depois que sua família voltasse a sorrir.

Estava carente mesmo. O melhor de estar viva é que sempre se pode fazer alguma coisa.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sonhar não custa nada

Quero ir para o “Incrível mundo onde não existem problemas”. Não conhece? Explico. Conhecido pela sigla IMONEP, trata-se de um mundo imaginário, óbvio, onde tudo segue um curso natural, sem traumas, chiliques, melindres.

No IMONEP, você chega ao trabalho de manhã e as pessoas lhe dizem bom dia. E sorriem. Não gritam com você nem lhe cobram o atraso naquele relatório que você só não entregou porque estava ocupado atendendo aos chiliques daquele cliente estratégico que, por sua vez, se for perdido, leva sua empresa à bancarrota. Aliás, no IMONEP não há clientes estratégicos. Sequer há clientes. Ah, que maravilha um mundo sem clientes.

Imagine, então, você chegando em casa e ninguém reclamando que você está atrasado, que não foi ao mercado, que precisa pagar a conta do gás, que a escola das crianças está atrasada, que a diretora ligou pra dizer que Luiz Maurício levou a terceira advertência na semana e que você precisa tomar uma providência, que você tem de ir àquela festa chata com gente mais chata ainda, que... Chama o IMONEP!

O IMONEP resolve tudo. Lá você ouve a música que quer, no volume que desejar, faz o que gosta e, pasme, com prazer. Respira, lê, dorme, dança, canta, ri alto e ninguém lhe aporrinha com as chatices do IMDPENU – Incrível mundo das pentelhações e necessidades urgentes.

No IMONEP você não precisa ficar equilibrando pratos e arrumando uma desculpa e uma solução para cada problema de cada criatura vivente ao seu redor. Você pode simplesmente aproveitar o seu tempo com coisas mais importantes, como comer um brigadeiro delicioso ou dar uma caminhada na praia.

Pena que o IMONEP seja tão difícil de acessar. O telefone toca. Um quer seu colo, o outro manda você para o inferno e mais um aparece pra lhe cobrar suas obrigações. Olha aí o IMDPENU se intrometendo no seu sonho...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Espelho, espelho meu...

Impossible is nothing, leu na camisa de uma pessoa que passava. Bom, impossível, impossível, talvez nada seja mesmo. Mas achar também que a vida é como se mostra no comercial da Adidas, aí já é um pouco demais.

Foi uma criança otimista. Era mirrado, tinha bronquite e todos os tipos de alergia que se pode detectar naquele maldito teste do braço. Jogar bola era um martírio. Mas ele ia. Bom, tentava, porque os meninos logo o colocavam pra escanteio. Literalmente. Mas, otimista, não desistia. Tentava jogar taco, empinar pipa, descer a ladeira de carrinho de rolimã, tudo sem grande sucesso, ou melhor, com generosas doses de fracasso. Mas numa coisa era imbatível: a brincadeira de esconde-esconde. Sabia se esconder como ninguém. Pequeno, se enfiava em qualquer buraco e ficava ali, quietinho, até a criançada quase desistir de tanto procurar. Aí, saía do esconderijo, de fininho, e ia até o pique. Era quase infalível.

Foi nessa época que descobriu o talento para a estratégia. Que lhe foi muito útil na adolescência quando, ainda magro, alérgico e com crises terríveis de bronquite – a bombinha sempre na mão – ele tentava, em vão, dançar com as meninas nas domingueiras intermináveis. Com um agravante: as espinhas, que brotavam nele como se sua pele fosse um jardim e elas as flores.

Diante do quadro desanimador, só muita lábia pra desviar a atenção das meninas dos garotos bonitos, fortes, populares. Popular ele era. E como. Lia muito, de Fernando Pessoa a Nietzsche, e sabia bem como lidar com as palavras. Era o melhor amigo das meninas, ensinava a escrever poesias, falava tudo o que elas adoravam ouvir. Daí para o bote era um pulinho.

E assim se tornou um grande conquistador. O seu hobby era o desafio. Conseguir aquilo que o mundo pudesse duvidar de que ele seria capaz porque por fora não se dava nada por ele. Conquistava tudo, conseguia tudo: mulheres, dinheiro, status, poder, amigos. Aos montes.

Tinha tudo o que uma criatura podia querer pra ser feliz. Só a si mesmo não tinha podido conquistar. Não sabia que armas usar para se convencer de que era o melhor. Pois o fato é que não era. Não passava de uma farsa, que uma rápida olhada no espelho revelaria. Por isso não olhava. O espelho era seu inimigo. Cruel, certeiro. O único que tivera realmente na vida. E que podia destrui-lo. Mas não seria agora.

Monossílabos

1 - Ei...
2 - E aí?
1 - Ah, sei lá.
2 - Quer?
1 - Não sei.
2 - Por quê?
1 - Humm...
2 - Vem.
1 - Já?
2 - Já.
1 - É? Ai.
2 - Ah, vai...
1 - E se...
2 - O quê?
1 - Dá pra...
2 - Dá sim.
1 - É?
2 - É. Vem, vai.
1 – Hummm... (pausa)
2 - E?
1 – (suspiro) Tá, vou.
2 - É? Oba!
1 - É, mas e se...
2 - Tá, eu sei.
1 - Lá tem...
2 - Tem sim.
1 - Tá... (pausa)
2 – (impaciente) E aí, vai ou não vai?
1 - Ihhh..
2 - Quê?
1 - É assim, é?
2 - Ah, que é isso...
1 – (ar desconfiado) Hummm. Sei não.
2 - Ai, ai. Tá bom. Vem aqui, vai...
1 – Ah, bom... Assim, sim.
2 - Bom...hã.. Vem?
1 - Já vou.
2 - Tá...
1 - Até já...(sai)
2 - Até. To aqui hein? (pausa) Uhu!!!!

À beira de um abismo

2 está. 1 chega. O lugar é conhecido. A dor também.

1 - Oi
2 - ...
1 - Faz tempo que você está aqui?
2 - Eu já vou embora.
1 - Não é pra você sair. Pode ficar. Eu só tava puxando assunto.
2 - Pra quê?
1 - Não sei. Achei o silêncio constrangedor.
2 - Não, constrangedora é a presença.
1 - A minha? Você não queria me ver, é isso? Até quando você ia fugir de mim?
2 - Até você deixar de existir.
1 - Quer que eu morra?
2 - Quero. Pelo menos o que há de você em mim.
1 - Será que ainda tem alguma coisa de mim em você? Não, não tem. Não vejo nada aí. Você quer me machucar, você conseguiu.
2 - ...
1 - Fala comigo.
2 - ....
1 - Por favor, fala comigo.
2 -...
1 - Por que você não vai pro inferno, então?
2 - Não posso ir pra um lugar de onde eu nunca saí.
1 - Foi só isso então que sobrou, a lembrança do inferno. Isso é tudo que ficou?
2 - Foi o que você me deixou.
1 - Não, não foi. Deixei muito do melhor de mim em você. Meu cheiro, meu gosto. O que é, esqueceu? Mentira! Não esqueceu nada. E é por isso que você não me encara, porque não pode esquecer, não consegue, não quer!
2 - Addicted.
1 - Quê?
2 - Eu. Sou addicted. Sabe o que é? É uma pessoa que não consegue viver sem uma substância, uma droga. É dependente daquilo. E aquilo faz mal, aquilo fere, aquilo acaba com a sua saúde física e mental, mas a pessoa não pode, não consegue, não quer ficar sem aquilo. Addicted.
1 - O que você chama de vício eu chamo de amor. Só que acabou. Tudo acaba não é? A gente se amou sim, e muito. Fomos muito felizes juntos, eu não sonhei isso, oras! E agora você vem me dizer que viveu num inferno? Uma ova! Por que as pessoas têm de se odiar quando acaba o amor?
2 - O ódio é o resíduo do amor. É o que sobra.
1 – Não. Não venha botar em mim a culpa pelo seu ódio. O ódio é seu produto não do amor que você viveu comigo. Desse não sobrou nada. Não se preocupe, não vou mais alimentar seu ódio, vou embora.
2 – Se não sobrou nada, por que você apareceu?
1 – Não sei. Talvez eu também tenha certa dose de vício. No que tinha de amor, não no ódio.

1 sai. 2 continua onde está. Não tem pra onde ir. O único caminho já havia sido trilhado.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Parabéns pra você

Festa de criança. Ou pior: fim de festa de criança. Não, não dá pra imaginar nada pior. O cenário é aterrador, ao melhor estilo filme-catástrofe de Hollywood. E eu lá, entre brigadeiros pisoteados – ainda bem que eu salvei alguns pra comer mais tarde –, decoração das meninas superpoderosas aos pedaços espalhada pelo chão e muito (mas muito mesmo) refrigerante derrubado pelas mesas fazendo papinha com os restos de sanduíche.

O que é que eu ainda estou fazendo aqui? Sei lá. Já podia ter ido embora, mas parei pra olhar o fim da festa. E ali, no meio daquela mixórdia eu comecei a prestar atenção nos balões. Não sei por que, chamou a minha atenção um balão bem cheio ao lado de um outro, esse já murchando.

Não é engraçado como um balão de aniversário pode ser uma metáfora da vida? Ou do amor, se preferir. Fica ao gosto do freguês. Porque a vida, e o amor por conseqüência, são assim, balões que começam cheios de todos os tipos de coisa: expectativas, tesão, felicidade, desejo, promessas, energia, força, coragem, alegria, sonho, vontade, etc. Pequenas porções de gás hélio.

Às vezes enchemos demais nosso balão e ele estoura antes da hora. Ou não. Ou era a hora exata. Mas o fato é que balão que não estoura vai murchar. Isso é certo. Porque todas as coisas minguam com o tempo e o gás vai escapando aos poucos, a gente nem percebe; é bem devagarzinho mesmo que a vida se vai. O amor junto. Ou vice-versa.

Penso isso no momento em que uma menina pega um dos balões cheios e começa a apertar. Ai, ai, coloco a mão no ouvido, vai estourar. Mas não, ela se desinteressa e o larga no chão. Não era a hora. Então a menina olha para o balão murcho por um instante e segue adiante correndo pelo salão com a sola do tênis forrada de brigadeiro esmagado. Ninguém se interessa pelo balão murcho, nem por nada que esteja se esvaindo.

É fim de festa. Vou pra casa comer meus brigadeiros.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Por uma vida menos ordinária


Cansaço. Os ossos doem, a cabeça dói. Uma mistura de enjôo e mal estar toma conta do estômago. Penso no que um amigo médico diz: se você passou dos trinta e não sente dor nenhuma, então está morto.

Eu sinto muitas. Do corpo ou do espírito, não sei bem de onde vêm. Mas penso que é um mal da nossa geração. Ou das últimas gerações, pra ser mais justa. Andamos de carro, fazemos tudo pela internet, vivemos sentados, deitados, acomodados. E tudo nos dói.

Aí penso nela. Olho para o retrato de nós duas que tirei ainda no hospital. Cinqüenta anos nos separam e ela, muito mais jovem que eu – apesar das dores reais, condizentes com o que viveu - me diz: ai, como eu tô feia, toda enrugada.

Mal sabe ela que ali, naqueles vincos, é que reside a maior beleza: a vida vivida, experimentada. No tempo dela, nada de carro, internet, microondas, celular. Caminhava-se. Para se encontrar os amigos era preciso visitá-los. Bom mesmo era ficar na calçada vendo as pessoas passarem; cumprimentar os vizinhos e ver as crianças brincando na rua. Viver amizades reais, relações reais.

Não, não é isso que faz dela uma pessoa muito mais bonita que eu. É, talvez, uma coisa simples, que nos esquecemos por conta de tantos afazeres que temos neste mundo high tech. Chama-se vontade. Volto a ela pra explicar.

Ela: Como chama a minha doença?
Ele: Não tem doença nenhuma, tem umas coisinhas normais na sua idade, diabetes, Mal de Parkinson, problemas da tireóide, mas nada demais.
Ela: Ah, mas eu não ando mais sozinha, não consigo mais fazer o serviço de casa, nem ir à igreja. Eu ia a tantos lugares, de ônibus, de trem, a pé.
Ele: É que você está velha vó, só isso. Já passou muito tempo, você tem 91 anos.
Ela: Mas passou muito rápido.

Ela tem 91 anos e acha que o tempo passou rápido demais. Se eu lhe desse as minhas pernas hoje, ela não ficaria reclamando das dores; pegaria um ônibus e iria passear.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Windows

Era a terceira vez só naquela manhã. Ô computadorzinho vagabundo. Não, injustiça colocar a culpa no computador, um duo core, Intel, super, mega, ultra advanced plus. A culpa era do Bill Gates, que encheu as burras de dinheiro com esse sistema operacional de m... Não é à toa que chama Windows, só jogando pela janela mesmo...

O fato é que já tinha reiniciado o computador três vezes. Agora vai. Pela terceira vez recomeçou a escrever o texto, que tinha perdido quando já estava na quinta lauda. Sim, ele tinha esquecido de salvar. Sabe como é, peraí, já salvo já, deixa eu concluir essa idéia. Lei de Murphy, meu caro, implacável com os desatentos e preguiçosos.

Conseguiu, finalmente, três horas depois, terminar o texto e salvar. Pronto. Viu? Até que não estamos mal, disse pra si mesmo.

E foi cuidar da vida. Antes tivesse ficado por ali, às voltas com os desatinos da informática. Porque os da vida, via de regra, são muito mais chatos e difíceis de resolver. Primeiro o banco, cobrando a cobertura do rombo na conta, muito acima do limite, que ainda sofreria outro baque com o desconto da terceira parcela do empréstimo, feito pra cobrir o rombo do mês anterior e... Melhor deixar pra lá, a crise estava aí pra todos e dinheiro não é tudo na vida.

Chegou ao trabalho. Duas cartas de demissão o esperavam, mais cinco ligações de um cliente problemático e uma faxineira pedindo dinheiro emprestado. Bom, pensou, todos os clientes são problemáticos, carentes e muitos pensam que a gente é psicólogo. Ligou para o cliente que estava enfurecido com uma falha de sua equipe. Equipe que quase não existia, porque duas pessoas já tinham desertado. Deu o dinheiro pra empregada, inventou uma desculpa para o cliente e foi pra casa tentar relaxar e pensar no que fazer.

Uma multa de 500 reais o esperava. Barulho excessivo na madrugada de sábado. Um cidadão não pode nem reunir os amigos em paz que essa gente chata, velha e ranzinza, que não tem o que fazer além de assistir o Zorra Total, vai reclamar com o síndico. Deixa só aquela velha do 115 colocar música gospel no último volume que ela vai ver!

Na secretária eletrônica, um recado da filha, chorando que tinha brigado com a mãe e que ia morar com ele. Morar? O que ele ia fazer com uma criança de 10 anos num conjugado de 45 m2? Outro recado, agora da ex-mulher, dizendo que ele era um canalha e que andava colocando idéias na cabeça da menina e dando mau exemplo. E que tinha de aumentar a pensão porque do jeito que estava não dava.

Foi pra suíte, ligou a banheira, que começou a encher. Um banho quente era tudo o que ele precisava. De repente, o barulho vindo da lavanderia. Era o aquecedor pedindo férias definitivas. A água na banheira ficou fria.

Pegou o computador, começou a escrever. Bom seria se a vida, ou pelo menos um pedaço dela, pudesse ser reiniciada quando as coisas saíssem do controle. Simples assim. Deu pau? Reinicia. Quer saber, viva o Bill Gates!

Nada onírico

Sonhei essa noite. De novo, um sonho recorrente. Sonho mau. Pesadelo. Mas não tem nada de premonitório. O meu sonho é como o dos cachorros. Sabia que os cachorros sonham? Sonham e muito. Mas, geralmente, os sonhos dos cachorros refletem o dia que tiveram: uma corrida pelo parque, o encontro com colegas na hora do passeio, o medo daquele cachorrão feroz da vizinha...

Os meus são assim também. Exacerbam aquilo que está acontecendo ou que foi pauta da minha vida recentemente. Mas nada de passeios no parque, nem de encontros com colegas. Tenho sonhado mesmo é com o cão feroz...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Logo agora

Ela: Te amo.
Ele: Também.
Ela: Por quê?
Ele: Por que o quê?
Ela: Por que você disse também?
Ele: Ué, porque sim.
Ela: Por que você não disse EU TE AMO TAMBÉM?
Ele: Sei lá, faz diferença?
Ela: Claro que faz. Óbvio que faz. Você prefere ouvir EU TE AMO ou simplesmente um seco TAMBÉM?
Ele: Ai meu saquinho. Não prefiro nada, aliás, prefiro, prefiro sim. Prefiro ficar aqui como estávamos vendo esse filminho, quietinhos, gostosinhos, pode ser?
Ela: Depende de você. Não fui eu quem estragou tudo.
Ele: Ok. Eu te amo também. Tá bom assim?
Ela: Claro que não, né? Você só falou porque eu falei.
Ele: Vamos começar de novo? Eu começo: Amor, eu te amo também muito demais. Você é a coisa que eu mais amo neste mundo. Você sabe disso e sabe também que eu não vivo sem você e que você me faz o homem mais feliz do mundo (beijo cinematográfico para tirar a respiração dela).
Ela: (depois do beijo cinematográfico de tirar o fôlego) Hum, agora sim.
Ele: Como assim, agora assim? É só isso que você diz depois disso tudo?
Ela: Ué, mas eu já disse EU TE AMO.
Ele: Você tem que racionar os EU TE AMO que diz pra mim? O que é isso, estamos na crise do EU TE AMO?
Ela: Ai, que estresse, eu hein? Você precisa parar com essa mania de ser mimado..E essa carência então, gente? O que é isso? Eu não vou ficar dizendo EU TE AMO a toda hora, não senhor. Imagina só. E vamos encerrar o assunto!
Ele: Tá, então não reclama do meu TAMBÉM!
Ela: Tá!
Ele: Tá!
Ela: Tá mesmo!
Ele...
Ela...
Ele: Quer pipoca?
Ela: Quero.
Ele:.Vai fazer, então, pitchuquinha?
Ela: Vou, mas com uma condição...
Ele: O quê?
Ela: Diz que me ama?

Ledo engano

Hoje vai ser um dia daqueles, pensou, enquanto se espreguiçava. Acordou animada. Bom, continuou pensando, agora em voz alta (veja o grau da animação), vou pra academia suar um pouco que eu estou precisando. Depois vou ao mercado, preciso comprar um monte de coisas e, chegando ao trabalho, vou disparar aqueles e-mails que estão parados desde a semana passada.

Ah, vou aproveitar e arrumar a minha mesa que está uma zona total e fazer um backup do computador. Quando foi o último mesmo? Hum, acho que em agosto do ano passado. Mas não tem problema, hoje eu ponho ordem nas coisas. Estou sentindo que vai ser um dia ótimo, vou conseguir fazer tudo. É tão bom quando a gente acorda assim, animada.

Deixa eu ver que mais, continuou, vou aproveitar esse tempinho e regar minhas plantinhas. Coitadinhas, estão meio murchinhas, mas nada que um pouco de água e sol não resolva, né, fofas?

E estava ali, com seus pensamentos animados, num dia animado, feliz tentando ressuscitar as plantinhas, quando um barulho esquisito trouxe a realidade de volta. O leite havia fervido e derramado sobre o fogão. Era o primeiro não do dia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Que dia é hoje

Nublado. De novo, nublado. Foi o que pensei assim que abri os olhos. Nem tinha olhado pela janela ainda. Mas olhar pra quê? Está nublado, é certo.

Nem sinal daquele facho de luz tão bonitinho que o sol faz vindo da janela lateral. É um risco só, mas de uma luz tão alegre, que dá vontade de rir. Pronto, olha aí que coisa boa: basta um risquinho de sol e a gente ri. Eu, pelo menos.

Mas hoje não. Nem sinal do sol, nem sinal do riso.

Talvez amanhã.

Carne viva

Alice sentou no chão e tentou lamber a ferida que via aberta na perna. Era uma tentativa desesperada de fazer parar aquela dor/ardência enlouquecedora.

Não conseguindo alcançar a perna com a língua, cuspiu na mão e passou a saliva na ferida. Doeu mais, ardeu mais, ela gritou um grito abafado pra que ninguém ouvisse.

Levantou-se. Ninguém ouviria de qualquer forma. Ela estava ali, sozinha no grande e absoluto deserto. Juntos, só o vento, assobiando, e a areia queimando os pés e aumentando a ferida.

A ferida. Ela nem tinha notado quando a ferida apareceu. Não foi assim, de cara, um machucado. Foi antes uma coceira, um incômodo, uma coisa leve que, de tanto cutucar, abriu.

Agora não havia mais o que fazer. Alice sentou novamente, chorou um pouco. Pôs a mão sobre a ferida, como quem faz um carinho.

Respirou fundo, levantou e começou a andar. Ela, o vento, a areia e a ferida, a cada passo um pouco mais aberta.

20/10/2008

Ninguém está impune

De repente ele percebeu que teria de fazer alguma coisa. Não sabia o quê. Mas sentia, sabia, enfim, tinha em si a certeza de que algo teria de acontecer.

Por que ele tinha querido? Por que tinha esperado o pacote? Podia ter ido embora, podia nem ter ligado. Mas não. Ficou ali, esperando a entrega. Ela veio e agora ele não sabia o que fazer com aquele pacote enorme nas mãos. Dar a quem? Por quê? Pra quê?

O que é que se faz, ele se perguntava, quando se quer tanto alguém, mas tanto, mas tanto, que tudo se coloca num único recipiente? E aí, numa bela tarde você recebe de volta o recipiente com tudo o que colocou lá dentro. Tudo meio apodrecido, rançoso.

Cá estava ele, com o cheiro de ranço e todas aquelas coisas mofadas amontoadas no pacote. Jogar fora não podia. Não ia conseguir. Eram suas coisas, boa parte do que ele era estava ali. Mas não poderiam ser utilizadas de novo, afinal, já tinham tido seu destino. Por que ele tinha esperado, meu Deus?

Antes tivesse ido e nem sabido o fim que o pacote levaria. Assim teria a ilusão de que tudo teria sido usado, sorvido, engolido e que ele não teria, agora, de pensar num destino digno – que, na verdade, não existia – para aquilo que um dia havia sido o melhor que ele podia dar, mas que, hoje, não passava de lixo inorgânico.

20/10/2008