domingo, 15 de março de 2009

Depois de tudo

De repente uma gota e eis o oceano.
Jorrando dentro
Escorrendo pelas frestas
Saindo pelo ladrão

O que ele leva de mim
Não é mais do que me deixou
O sangue fervendo
A alma aquecida
Depois do inverno

Agora é madrugada aqui dentro
Estou molhada, úmida, gelada
O sangue coagulou, a alma esfriou
O inverno voltou

Calada
Com o coração nas mãos
Espero a primavera
Nada mais a fazer
Só me resta desejar o sol

quarta-feira, 11 de março de 2009

Luta

No vão, um dragão
No poço, no breu,
No meio de tudo:
Eu

E o dragão
Ele, fogo
Eu, ar
Combustão

No fim
Um pouco do tudo
Muito do nada
Tudo de mim

Semente
Cinza

Ainda ardente

quinta-feira, 5 de março de 2009

Dois

Paz.
Pra quê? Mais!
Mais o quê?
Prazer. Cadê?
Pé no chão!
Qual o quê: paixão!
Sem ação.
Sensação.
Força o berro. Eu quero!
Vai!
Vem.
Não vou. Não fico.
Não sou. Só sinto.
E permito.

Linha


Quatro lados iguais.
Quatro ângulos retos.
Pra onde ir não há além dali.
Quatro trajetos, todos iguais.
Quatro possibilidades ou uma apenas, quadruplicada?
Mais chances de acertar ou a mesma de errar.
Se o caminho não muda, mudamos?

Historinha

O despertador tocou pontualmente. Sete horas da manhã. Sem hesitar, levantou-se, arrumou os botões do pijama, meio soltos pela noite agitada. Depois do banho rápido – não mais do que cinco minutos, como a mãe sempre recomendara – parou em frente ao espelho e penteou cuidadosamente o cabelo grisalho. Um pouco de gel – bem pouco pra não ficar melado – manteria os fios no lugar por quase um dia inteiro.

Vestiu uma bermuda xadrez azul claro e uma camiseta com um tom de azul acima. Azul piscina, diria a mãe. Vestiu os óculos, conferiu se havia dinheiro na carteira e saiu. Antes, como todos os dias, um beijo no retrato da mãe em cima da estante da sala.

Um acaso o levou àquela rua desconhecida no caminho da praia. Foi atraído por um esquilo e o seguiu enquanto pôde, mas o bichinho fugiu assustado e ele se viu diante daquela cafeteria, dessas que têm livros dentro.

Entrou. Uma hora, duas, três. Já eram quase 11 horas quando ela apareceu. Ele ainda não havia conferido todo o acervo, estava quase no fim, mas parou para olhar pra ela. A agitação da noite voltou. Começou a salivar, coçou a cabeça, esfregou as mãos. Não sabendo o que dizer, disse:

- A senhorita gosta de livros? Se gosta – claro que gosta, não é, senão não estaria aqui – eu posso ajudá-la a escolher um bom livro.

- Gosto.

- Pois então, diga que tipo de livro a senhorita gosta? É senhorita não é? Pode dizer qualquer gênero que tenho resenhas na cabeça pra lhe informar.

- Obrigada. Estou só olhando.

- A senhorita iria gostar muito de um livro chamado Mrs. Dalloway, da escritora inglesa Virginia Wolf. Conhece? É muito interessante. Se gosta de poesia, recomendo A Rosa do Povo, do nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade.

- Obrigada.

- Diga lá, vamos. Eu já conferi todo o acervo, pode perguntar.

- Eu só vim tomar um café, obrigada.

- Quer companhia para o café, podemos nos conhecer melhor (será demais isso?), falar sobre livros...

- Obrigada, só vou tomar o café e ler o jornal.

- Ah, sim, pois não, é muito importante ficar bem informada. (Para a dona do café) - A senhora me vê os meus livros, por favor? Muito obrigado. Semana que vem venho buscar mais. (Para a moça) - Comprei 10 livros muito interessantes. Se a senhorita mora por aqui podemos nos encontrar para trocar alguns. A senhorita me empresta os seus e leva os meus.

- Não sou daqui, mas obrigada.

- Aceita um doce?

- Não obrigada.

- A senhorita vai recusar um doce? Aceite, é de coração, como os livros.

- Obrigada.

- Bom, vou andar na praia. Se a senhorita quiser caminhar comigo, conversar sobre livros e doces...

- Não, obrigada.

- Então, até logo. Bom dia.

Saiu relutante. Desistiu de ir até a praia. Voltou pra casa. Arrumou os livros cuidadosamente na estante, sob o retrato da mãe. Beijou o retrato novamente, tirou os óculos, tirou a roupa, dobrou e colocou as duas peças sobre a cadeira do quarto. Tomou outro banho de cinco minutos. Penteou cuidadosamente o cabelo, mas não colocou gel. Vestiu o pijama e deitou-se. Teria o sono agitado novamente.