quarta-feira, 23 de março de 2011

Pertencer

Nunca fui excepcional em nada. Não fui a melhor aluna, nem a menina mais bonita, muito menos a mais popular. Sempre fui mediana, esforçada. Sempre corri atrás. De mim, mais do que de qualquer coisa. Sempre me senti fora de contexto. Nunca pertenci a nada, a vida toda procurando o meu lugar.

Foi esse arrepio, essa falta de ar, esse coração saltando pela boca que me deram a dimensão do meu pertencimento. Sou do palco, ali é meu lugar, onde o meu coração bate de verdade. Onde eu sou feliz. Que seja sempre assim, sempre um palco para mim.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Leite derramado

Odiava. A despeito da educação cristã e de tudo o que aprendera sobre o amor ao próximo, ao distante, ao ausente, continuava odiando. Claro, tentava disfarçar, mas a raiva às vezes parecia leite fervendo e subia rápido que nem foguete. Nessas horas era bom sair de baixo porque a baixinha não era fácil. Talvez a pequena estatura fosse um fator preponderante na velocidade da fervura do sangue, mas o fato é que ela ia ficando vermelha na mesma medida em que a voz ia ficando estridente e aumentando o volume até o limite do insuportável para os ouvintes. De repente, assim como quando se apaga a chama do fogão e o leite desce rapidamente, a raiva passava e ela mudava de assunto. Pior, esquecia o assunto tão completamente que se lhe perguntassem, horas depois, o que havia ocorrido, ela tinha dificuldades de lembrar a sequência dos fatos ou o real motivo da explosão. A capacidade de odiar era proporcional à de esquecer.

Mas o problema não eram as grandes explosões. O que matava mesmo, ou melhor, dava nela uma vontade indescritível de cometer assassinato, eram os odiozinhos do dia a dia, as raivinhas que tinha de acumular na vidinha pequeno burguesa que levava. A caixa do supermercado passando as compras mais rápido do que ela podia ensacá-las, causando um engarrafamento de mantimentos no balcão. A tiazinha na fila do caixa eletrônico lendo todas as instruções antes de tirar o saldo e lendo novamente antes de tirar o dinheiro e, mais uma vez, relendo antes de tirar novo extrato pra ver como a conta tinha ficado depois do saque. O infeliz atrás dela no semáforo, enfiando a mão na buzina um milionésimo de segundo depois de mudar para o verde. O motoqueiro, esse causador de ódios de todas as formas e tamanhos, buzinando na orelha dela, xingando e fazendo sinal pra ela ir para o lado para que ele, o rei da rua, pudesse passar entre as faixas folgadão. O atendente de telemarketing ligando às 8 da manhã do sábado pra oferecer uma promoção imperdível do cartão de crédito. O outro atendente de telemarketing colocando a ligação em espera numa rádio fora de estação por um tempo interminável, com pequenas interrupções para a entrada da gravação: aguarde mais um momento, a sua ligação é muito importante para nós. O computador, que insistia em travar bem na hora em que ela estava terminando aquele texto enorme...sem salvar.

Eram tantos ódios acumulados que o leite subia e descia diariamente uma quantidade infindável de vezes. Até o dia em que derramou. Literalmente. Uma veia estourou e, assim como o leite no fogão, o sangue derramou fazendo uma baita sujeira no tapete novo. Que raiva.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pedacinho

Veja que agora é hora de ir embora
mas não não me deixe agora
que a nossa historia não tem memória
e vai caducar

terça-feira, 20 de julho de 2010

Arrependimento

A próxima vez em que eu acordar
vou dar bom dia primeiro
imaginar que o dia está lindo (mesmo que chova)
me espreguiçar
e sair do sonho por inteiro

Porque a vida é aqui
apesar da intolerância
há vida aqui
com raiva, grito e o medo do ranço

A gente fala e não entende
a gente ouve e não vê
a gente só não diz o que sente
e, de repente, a gente perde o que tem

O que é que eu faço agora
que o amargo me acertou em cheio?
sei lá, sair, talvez ir embora
mas da próxima vem em que eu acordar (prometo)
vou dar bom dia primeiro.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Telemarketing ativo

- Alô?
- Bom dia, por favor eu gostaria de falar com a senhora Vanessa Soares da Silva?
- Sou eu, pois não.
- Bom dia, Dona Vanessa! Meu nome é Franciele e eu sou da seguradora Risco Certo, tudo bem com a senhora?
- Não, Franciele, nada está bem comigo.
- Que bom, Dona Vanessa, então, nós temos uma oferta da seguradora Risco Certo para a senhora. A senhora pode estar adquirindo um seguro de vida no valor de 500 mil reais que vem junto com um título de capitalização e que vem também com um bônus que vai estar oferecendo para a senhora a oportunidade de receber todo o dinheiro que a senhora pagar de volta depois de quatro anos e...
- Franciele, esse seguro cobre desilusão e desemprego?
- Como, senhora?
- Meu marido me abandonou por uma piriguete, eu perdi meu emprego e não tenho como pagar minhas contas, então eu quero saber se o seguro cobre isso tudo. Se cobrir eu faço já, uso o limite da conta conjunta que tenho ainda com o patife e contrato. Cobre?
- Não, senhora, o seguro cobre morte acidental e morte natural.
- Querida, se eu morrer, eu não preciso do seguro.
- Mas, senhora, seus dependentes vão estar recebendo o valor do seguro. Assim a senhora não deixa a sua família desamparada. E tudo isso por apenas, 59,99, por mês.
- Que família, criatura? Meu marido, safado, lazarento, me largou e ainda levou meu cachorro. Me deixou sem um tostão furado, com uma conta estourada e um monte de dívidas. Eu não tenho 1,99 , como vou ter 59,99? E pra que é que eu quero ter seguro de vida? Só se tiver um seguro para quem assassina a tesouradas o marido traidor. Tem? Hein, Franciele?
- Senhora Vanessa, a seguradora Risco Certo agradece a sua atenção. Vamos estar anotando suas sugestões. Tem mais alguma coisa em que eu possa ajudá-la?
- Claro que tem Franciele. Você pode vir aqui me fazer um cafuné, pode me arranjar um emprego, um marido decente que não me apunhale pelas costas, pode ir fazer umas compras no mercado pra mim, lavar a louça que está há uma semana na pia, regar as plantas que morreram, atender o telefone e falar com esses infelizes desses operadores de telemarketing que só ficam me ligando pra vender coisas inúteis, falar errado e encher o meu saco!
- tu...tu...tu...tu...
- Dois minutos. Ótimo, menos um pentelho.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Balanço

Vai, vem. Por que não?
Esgana a minha gana
Deixa na cama a insana
Nas paredes o eco
No chão o suor

E o melhor:
Fica perto, quente
Latente como uma noite de verão
Incerto na cadência do passo
Na respiração intensa, inconstante.

Perfeito no abraço.
E eterno num instante.
Vem, vai?

domingo, 12 de julho de 2009

Fusão

Eu preciso de poesia pra viver
Não acontece todo dia
Não, não é fácil, eu sei
É raro mesmo conseguir produzir a magia
Mas pode acontecer a qualquer momento
Se você estiver presente
Se ficar atento

Pode ser naquele instante
Da gana do sexo
Do abraço depois do sexo
Das respirações conjugadas
Da cabeça no peito
Das salivas misturadas
Da calma do sono
Do olhar safado, contente, afobafo, amedrontado
Do riso largo
Do sorriso sem graça, inquieto
Do prazer de estar perto
Da admiração de um encontro único, raro, especial

E aí, nessa hora, nós somos a Poesia
E tudo vale a pena
Cada momento mágico vale uma vida inteira