Odiava. A despeito da educação cristã e de tudo o que aprendera sobre o amor ao próximo, ao distante, ao ausente, continuava odiando. Claro, tentava disfarçar, mas a raiva às vezes parecia leite fervendo e subia rápido que nem foguete. Nessas horas era bom sair de baixo porque a baixinha não era fácil. Talvez a pequena estatura fosse um fator preponderante na velocidade da fervura do sangue, mas o fato é que ela ia ficando vermelha na mesma medida em que a voz ia ficando estridente e aumentando o volume até o limite do insuportável para os ouvintes. De repente, assim como quando se apaga a chama do fogão e o leite desce rapidamente, a raiva passava e ela mudava de assunto. Pior, esquecia o assunto tão completamente que se lhe perguntassem, horas depois, o que havia ocorrido, ela tinha dificuldades de lembrar a sequência dos fatos ou o real motivo da explosão. A capacidade de odiar era proporcional à de esquecer.
Mas o problema não eram as grandes explosões. O que matava mesmo, ou melhor, dava nela uma vontade indescritível de cometer assassinato, eram os odiozinhos do dia a dia, as raivinhas que tinha de acumular na vidinha pequeno burguesa que levava. A caixa do supermercado passando as compras mais rápido do que ela podia ensacá-las, causando um engarrafamento de mantimentos no balcão. A tiazinha na fila do caixa eletrônico lendo todas as instruções antes de tirar o saldo e lendo novamente antes de tirar o dinheiro e, mais uma vez, relendo antes de tirar novo extrato pra ver como a conta tinha ficado depois do saque. O infeliz atrás dela no semáforo, enfiando a mão na buzina um milionésimo de segundo depois de mudar para o verde. O motoqueiro, esse causador de ódios de todas as formas e tamanhos, buzinando na orelha dela, xingando e fazendo sinal pra ela ir para o lado para que ele, o rei da rua, pudesse passar entre as faixas folgadão. O atendente de telemarketing ligando às 8 da manhã do sábado pra oferecer uma promoção imperdível do cartão de crédito. O outro atendente de telemarketing colocando a ligação em espera numa rádio fora de estação por um tempo interminável, com pequenas interrupções para a entrada da gravação: aguarde mais um momento, a sua ligação é muito importante para nós. O computador, que insistia em travar bem na hora em que ela estava terminando aquele texto enorme...sem salvar.
Eram tantos ódios acumulados que o leite subia e descia diariamente uma quantidade infindável de vezes. Até o dia em que derramou. Literalmente. Uma veia estourou e, assim como o leite no fogão, o sangue derramou fazendo uma baita sujeira no tapete novo. Que raiva.
TOAD THE WET SPROCKET - FEAR.
Há 10 anos

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