Impossible is nothing, leu na camisa de uma pessoa que passava. Bom, impossível, impossível, talvez nada seja mesmo. Mas achar também que a vida é como se mostra no comercial da Adidas, aí já é um pouco demais.
Foi uma criança otimista. Era mirrado, tinha bronquite e todos os tipos de alergia que se pode detectar naquele maldito teste do braço. Jogar bola era um martírio. Mas ele ia. Bom, tentava, porque os meninos logo o colocavam pra escanteio. Literalmente. Mas, otimista, não desistia. Tentava jogar taco, empinar pipa, descer a ladeira de carrinho de rolimã, tudo sem grande sucesso, ou melhor, com generosas doses de fracasso. Mas numa coisa era imbatível: a brincadeira de esconde-esconde. Sabia se esconder como ninguém. Pequeno, se enfiava em qualquer buraco e ficava ali, quietinho, até a criançada quase desistir de tanto procurar. Aí, saía do esconderijo, de fininho, e ia até o pique. Era quase infalível.
Foi nessa época que descobriu o talento para a estratégia. Que lhe foi muito útil na adolescência quando, ainda magro, alérgico e com crises terríveis de bronquite – a bombinha sempre na mão – ele tentava, em vão, dançar com as meninas nas domingueiras intermináveis. Com um agravante: as espinhas, que brotavam nele como se sua pele fosse um jardim e elas as flores.
Diante do quadro desanimador, só muita lábia pra desviar a atenção das meninas dos garotos bonitos, fortes, populares. Popular ele era. E como. Lia muito, de Fernando Pessoa a Nietzsche, e sabia bem como lidar com as palavras. Era o melhor amigo das meninas, ensinava a escrever poesias, falava tudo o que elas adoravam ouvir. Daí para o bote era um pulinho.
E assim se tornou um grande conquistador. O seu hobby era o desafio. Conseguir aquilo que o mundo pudesse duvidar de que ele seria capaz porque por fora não se dava nada por ele. Conquistava tudo, conseguia tudo: mulheres, dinheiro, status, poder, amigos. Aos montes.
Tinha tudo o que uma criatura podia querer pra ser feliz. Só a si mesmo não tinha podido conquistar. Não sabia que armas usar para se convencer de que era o melhor. Pois o fato é que não era. Não passava de uma farsa, que uma rápida olhada no espelho revelaria. Por isso não olhava. O espelho era seu inimigo. Cruel, certeiro. O único que tivera realmente na vida. E que podia destrui-lo. Mas não seria agora.
TOAD THE WET SPROCKET - FEAR.
Há 10 anos

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