Deu um passo, dois, então parou. Continuava vendo o vulto pequeno acenando do outro lado da margem do rio, uns 100, talvez 200 metros distante. Mas era ele, tinha certeza. Ele acenava e chamava. Ela, com medo, tentava gritar que não tinha condições de atravessar o rio. A correnteza era muito forte, havia centenas de pedras no percurso. Não tinha jeito, ela nem nadava direito. Sabia nadar o básico, pra não morrer afogada.
Gritava, ele parecia não ouvir. Continuava acenando e chamando. “Por que ele não vem?”, pensava. “Ele é maior, mais forte, sabe nadar bem, talvez conseguisse passar a correnteza”. Ele nem se movia. Mas era tão convidativo. Mesmo à distância parecia tão bonito e tão ansioso por tê-la perto. “Não dá pra atravessar, eu não consigo, vem você!”, ela tentou mais uma vez.
Então ele começou a parecer mais distante aos olhos dela; agora ela olhava e quase não o via, mas sentia sua presença, o cheiro, como se ele estivesse a poucos centímetros. Deu mais um passo. Estava à beira do rio. Se saltasse não teria volta. Olhou pra frente, ele continuava lá, muito difuso; o cheiro, porém, mais presente do que nunca.
No ímpeto – e tudo nela era impulso – saltou. A correnteza estava muito forte, mais ainda do que parecia da margem. Engoliu água, achou que ia se afogar; continuou batendo os braços e pernas desordenadamente, desesperada. Tentou gritar por socorro, engoliu mais água. Quanto mais se debatia, mais parecia ser levada pela correnteza e ao fundo. “Não vai dar, pensou”. E mesmo ali, no desespero de se manter viva, ainda sentia a presença dele e até lhe pareceu, num repente, ver sua mão a alguns metros dela. Num esforço absurdo levantou a cabeça e teve certeza de vê-lo, agora quase nítido, perto, muito perto. “Vai dar, sim!”.
E foi, com pernas, braços, cabeça. Batendo-se toda nas pedras, sangrando, as forças quase se esvaindo. Foi, como um cão, guiada pelo cheiro dele e pela certeza da sua presença próxima. Inacreditavelmente, contra todas as possibilidades, ela tocou a margem oposta do rio.
Ele não estava lá. Cansada, sem ar, muito ferida, olhou em volta, procurando algum sinal dele. Nada. Só o cheiro ainda forte. Então ela o viu do outro lado, na outra margem, a 100, 200 metros de distância, acenando e chamando.
TOAD THE WET SPROCKET - FEAR.
Há 10 anos

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