sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Carpe Diem


E seu eu morresse agora? Acordou com a pergunta martelando na cabeça. Não que nunca tivesse pensado nisso, pensava sim. Mais quando era adolescente, numa necessidade meio mórbida de se imaginar sem vida num caixão com os outros chorando em volta.

Será que era isso? Puramente uma morbidez infantil ou carência, medo, solidão?

Estava ali na cama e só conseguia imaginar como seria se morresse naquele minuto. E pensava tudo: como seria a comunicação da sua morte para os parentes, amigos próximos, amigos distantes. A reação de cada um; o choro convulsivo de um misturado ao choque de outro; o desespero e o inconformismo daqueles que viam nela um exemplo de vivacidade. As pessoas comentando como ela era inteligente, bonita, compreensiva, capaz, com uma vida inteira pela frente.

Tinha quase um prazer em pensar o quanto as pessoas sofreriam pela sua morte. Imaginava se o velório estaria lotado e como ela estaria vestida. Será que lhe colocariam uma roupa que ficasse bem? E maquiagem, será que fariam pelo menos uma maquiagem leve, pra ela não ficar feia, com as olheiras horrorosas que ela detestava? Tinha quilos de corretivo em casa, precisava avisar alguém disso. Justo ela, que odiava velório e que não chegava perto de um caixão por nada.

Nesse devaneio só não lembrou de pensar como seria a vida depois. Sim, depois da missa de sétimo dia, depois que ela fosse substituída no trabalho, que suas roupas tivessem sido doadas, que seu cachorro se acostumasse à nova casa, que seus amigos deixassem de falar dela em todos os encontros. Depois que sua família voltasse a sorrir.

Estava carente mesmo. O melhor de estar viva é que sempre se pode fazer alguma coisa.

Um comentário:

Silvio Luiz Miranda disse...

Sabe, minha amiga de tantos e corridos anos, quando a gente estava naquela escola pública, lá na 2ª metade da década de 70, eu nem poderia imaginar que tudo o que nos aconteceu nos traria aqui. O seu texto é cada vez mais lapidar e a sua alma cada vez mais de artista. Um beijo de um fraterno amigo de sempre. E não esqueça: meu rebento precisa te conhecer.