quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Paralelas

Eu olho pra ela e até dói. O jeito de andar, de falar cinqüenta coisas ao mesmo tempo, como se tivesse só cinco minutos de vida. Parece mesmo que a vida dela acontece em ciclos de cinco minutos. Ou de minuto em minuto em certos períodos. Ela é frenética, mas é soturna também. E fica ali testando a minha capacidade de absorver o que ela é, ora me dando uma risada deliciosa, ora um grito insuportável, ora um choro doído.

Dói em mim também. Assim como o riso me faz rir e chorar. Porque eu quero. Mas eu não sei ao certo se o meu desejo é dela ou daquilo que vem dela. Acho às vezes que eu sou um pouco vampiro, tentando sugar o sangue dela. Tê-la dentro de mim sem ter de tê-la por fora.

Não pode. Assim não pode, ela me diz. Se me quer, tem de ser por inteiro.

Quer mais inteiro que isso? Eu sinto que ela é uma extensão de mim, que há um fio invisível entre nós dois. Ninguém me ouve como ela, nem diz aquilo que eu preciso ouvir como ela diz; ninguém adivinha meus pensamentos nem fala tanta bobagem quando quer me provocar. Ninguém está do meu lado incomensuravelmente, apesar de tudo. Ela está. Ela é.

Então somos inteiros, porque não nunca fui mais que isso pra ninguém. Se existe amor, isso é o mais perto que cheguei dele. Mas ela quer mais, quer a presença, que ser constante, quer a rotina. Quer andar de mãos dadas na praça, quer um beijo no meio da rua, quer o bom dia todos os dias.

Não tenho, não posso, não sei fazer isso. Desse ponto não dá pra passar. Prefiro então só olhar pra ela. Assistir a vida dela acontecendo.

Eu perco muito do meu suprimento, do que me alimenta. Ela perde também, menos que eu, mas sabe como resolver tudo. A vida dela se renova a cada cinco minutos.

Não posso chegar muito perto, dói nela, eu sei, mas dói muito mais em mim.

2 comentários:

Silvio Luiz Miranda disse...

Vivi assim, não vivo mais. Abraço o amor nem que ele seja uma fogueira de grandes labaredas. E por falar nisso: esse texto queima no coração.

Silvio Luiz Miranda disse...

Sinto que o texto é pra queimar mesmo, mas é de uma angústia, de uma irrealização. O amor não se concretiza pelo medo do amor. A platéia vai se identificar com isso, mas não vai ser uma peça para qualquer platéia, não. Essa gente semi-alfabetizada que freqüenta os bancos das universidades hoje, só consegue ver comédia.