segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Carne viva

Alice sentou no chão e tentou lamber a ferida que via aberta na perna. Era uma tentativa desesperada de fazer parar aquela dor/ardência enlouquecedora.

Não conseguindo alcançar a perna com a língua, cuspiu na mão e passou a saliva na ferida. Doeu mais, ardeu mais, ela gritou um grito abafado pra que ninguém ouvisse.

Levantou-se. Ninguém ouviria de qualquer forma. Ela estava ali, sozinha no grande e absoluto deserto. Juntos, só o vento, assobiando, e a areia queimando os pés e aumentando a ferida.

A ferida. Ela nem tinha notado quando a ferida apareceu. Não foi assim, de cara, um machucado. Foi antes uma coceira, um incômodo, uma coisa leve que, de tanto cutucar, abriu.

Agora não havia mais o que fazer. Alice sentou novamente, chorou um pouco. Pôs a mão sobre a ferida, como quem faz um carinho.

Respirou fundo, levantou e começou a andar. Ela, o vento, a areia e a ferida, a cada passo um pouco mais aberta.

20/10/2008

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