quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Por uma vida menos ordinária


Cansaço. Os ossos doem, a cabeça dói. Uma mistura de enjôo e mal estar toma conta do estômago. Penso no que um amigo médico diz: se você passou dos trinta e não sente dor nenhuma, então está morto.

Eu sinto muitas. Do corpo ou do espírito, não sei bem de onde vêm. Mas penso que é um mal da nossa geração. Ou das últimas gerações, pra ser mais justa. Andamos de carro, fazemos tudo pela internet, vivemos sentados, deitados, acomodados. E tudo nos dói.

Aí penso nela. Olho para o retrato de nós duas que tirei ainda no hospital. Cinqüenta anos nos separam e ela, muito mais jovem que eu – apesar das dores reais, condizentes com o que viveu - me diz: ai, como eu tô feia, toda enrugada.

Mal sabe ela que ali, naqueles vincos, é que reside a maior beleza: a vida vivida, experimentada. No tempo dela, nada de carro, internet, microondas, celular. Caminhava-se. Para se encontrar os amigos era preciso visitá-los. Bom mesmo era ficar na calçada vendo as pessoas passarem; cumprimentar os vizinhos e ver as crianças brincando na rua. Viver amizades reais, relações reais.

Não, não é isso que faz dela uma pessoa muito mais bonita que eu. É, talvez, uma coisa simples, que nos esquecemos por conta de tantos afazeres que temos neste mundo high tech. Chama-se vontade. Volto a ela pra explicar.

Ela: Como chama a minha doença?
Ele: Não tem doença nenhuma, tem umas coisinhas normais na sua idade, diabetes, Mal de Parkinson, problemas da tireóide, mas nada demais.
Ela: Ah, mas eu não ando mais sozinha, não consigo mais fazer o serviço de casa, nem ir à igreja. Eu ia a tantos lugares, de ônibus, de trem, a pé.
Ele: É que você está velha vó, só isso. Já passou muito tempo, você tem 91 anos.
Ela: Mas passou muito rápido.

Ela tem 91 anos e acha que o tempo passou rápido demais. Se eu lhe desse as minhas pernas hoje, ela não ficaria reclamando das dores; pegaria um ônibus e iria passear.

3 comentários:

Quincas Amplexo disse...

Do dia 16 ao dia 19 de outubro, estive no hospital com o meu sobro, que veio a falecer, o e no leito ao lado estava o Seu Sebatião, não podia andar estava com problemas nos pes, mas era de uma vivacidade, e uma vontade de viver e transbordava, um dia estava chorando quando falava que sua diabetes havia baixado, ficava Feliz de pensar em poder comer aquele pratão de macarão. Sua Vó também parece passar esta felicidade, e só vamos perceber que o tempo passou rapido, que não fizemos e que queriamos, quando já não mais houver a possibilidade de fazer. Sempre sabemos disso na teoria, mas a pratica só vem com os 91 anos.....
Beijos

José Alberto Moraes disse...

Belíssimo texto felicidades para vc e para ela!!!!!!!!!!!!
um super beijo!

Silvio Luiz Miranda disse...

Má, que legal. Cristininha Osborne é isso aí. Puro suco! Vitalidade de espírito. Pena o tempo ser tão inexorável. Cristininha é tão amiga de Deus que Ele mesmo virá dar as mãos a ela. A propósito, o texto está perfeito até pelo seu comprometimento com essa realidade.