Aconteceu do nada. Um constrangimento, que foi crescendo e virando outra coisa, um tipo de vontade. Já se conheciam há bastante tempo, podia se dizer até que eram meio amigos; não totalmente porque tinham turmas diferentes e, sabe como é, no tempo em que eram crianças havia um separatismo muito maior entre meninos e meninas. Só esporadicamente jogavam queimada juntos. Quer dizer, um contra o outro, porque o jogo era normalmente de meninos contra meninas.
O tempo passou e a presença um do outro nunca os incomodou; cruzavam-se na escola, depois pelo bairro e, mais tarde em festas de amigos comuns. Conversavam banalidades, a loucura que é a vida, como o tempo passa rápido e como os tempos mudaram desde que eram crianças.
- O Luciano engordou demais depois que casou, né?
- É, bem que eu falei que esse negócio de casar fazia mal pra saúde.
- Não sei se é o casamento não, você também tem de tomar cuidado, tem uma barriguinha aparecendo aí..
- É charme, como essas marquinhas que você faz no rosto quando ri.
- Engraçadinho.
Ficavam nessas provocações até que caíam na risada. Nada até então tinha dado qualquer sinal de que algo havia mudado. E nem eles mesmos saberiam dizer, depois de tudo, como aconteceu.
Mas aconteceu. Estavam ali, numa das festas de amigos e numa conversa sobre como o mundo estava diferente e ninguém mais jogava bola na rua quando o assunto acabou. Ou acabou a necessidade de procurar assunto.
Silêncio. Mais que silêncio, um estado de suspensão. E o constrangimento. Ele ria, ela ria, um riso sem graça, depois uma gargalhada sem motivo, que morria em si e voltava a ser o riso sem graça.
E eles se olharam pela primeira vez em vinte anos. Nada mais tinha de ser dito, estava tudo ali, no olhar, no silêncio.
Sabiam o que ia acontecer. Sabiam também que seria o fim dos encontros casuais, amigáveis e que nunca mais iriam comentar os velhos tempos.
Mas tinham de seguir. Um contra o outro, como nos tempos em que jogavam queimada. Mas o jogo agora era outro.
TOAD THE WET SPROCKET - FEAR.
Há 10 anos

2 comentários:
Lindo esse...
adorei as associações com as relações estabelecidas na infancia...
Engraçado que ouvi um dia um "depoimento" seu num churrasco no MaurO ("O" destacado pra ficar claro que é outra pessoa e que é um homem)... Enfim, lembro de vc falando sobre uns episódios seus de infância e adorei! Achei muito corajoso reviver tantas emoções marcantes (e às vezes doloridas) com tanta tranquilidade...
Amei!
Oi Má,
Muito bom, principalmente nas referências de tempos idos e na relação dos personagens. Corrija, por favor, a concordância do 4º parágrafo: "E nem eles mesmos saberia dizer". Deve ter sido erro de digitação.
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