terça-feira, 18 de novembro de 2008

Romance

Aconteceu do nada. Um constrangimento, que foi crescendo e virando outra coisa, um tipo de vontade. Já se conheciam há bastante tempo, podia se dizer até que eram meio amigos; não totalmente porque tinham turmas diferentes e, sabe como é, no tempo em que eram crianças havia um separatismo muito maior entre meninos e meninas. Só esporadicamente jogavam queimada juntos. Quer dizer, um contra o outro, porque o jogo era normalmente de meninos contra meninas.

O tempo passou e a presença um do outro nunca os incomodou; cruzavam-se na escola, depois pelo bairro e, mais tarde em festas de amigos comuns. Conversavam banalidades, a loucura que é a vida, como o tempo passa rápido e como os tempos mudaram desde que eram crianças.

- O Luciano engordou demais depois que casou, né?
- É, bem que eu falei que esse negócio de casar fazia mal pra saúde.
- Não sei se é o casamento não, você também tem de tomar cuidado, tem uma barriguinha aparecendo aí..
- É charme, como essas marquinhas que você faz no rosto quando ri.
- Engraçadinho.

Ficavam nessas provocações até que caíam na risada. Nada até então tinha dado qualquer sinal de que algo havia mudado. E nem eles mesmos saberiam dizer, depois de tudo, como aconteceu.

Mas aconteceu. Estavam ali, numa das festas de amigos e numa conversa sobre como o mundo estava diferente e ninguém mais jogava bola na rua quando o assunto acabou. Ou acabou a necessidade de procurar assunto.

Silêncio. Mais que silêncio, um estado de suspensão. E o constrangimento. Ele ria, ela ria, um riso sem graça, depois uma gargalhada sem motivo, que morria em si e voltava a ser o riso sem graça.

E eles se olharam pela primeira vez em vinte anos. Nada mais tinha de ser dito, estava tudo ali, no olhar, no silêncio.

Sabiam o que ia acontecer. Sabiam também que seria o fim dos encontros casuais, amigáveis e que nunca mais iriam comentar os velhos tempos.

Mas tinham de seguir. Um contra o outro, como nos tempos em que jogavam queimada. Mas o jogo agora era outro.

2 comentários:

TALES FREY disse...

Lindo esse...
adorei as associações com as relações estabelecidas na infancia...
Engraçado que ouvi um dia um "depoimento" seu num churrasco no MaurO ("O" destacado pra ficar claro que é outra pessoa e que é um homem)... Enfim, lembro de vc falando sobre uns episódios seus de infância e adorei! Achei muito corajoso reviver tantas emoções marcantes (e às vezes doloridas) com tanta tranquilidade...
Amei!

Silvio Luiz Miranda disse...

Oi Má,

Muito bom, principalmente nas referências de tempos idos e na relação dos personagens. Corrija, por favor, a concordância do 4º parágrafo: "E nem eles mesmos saberia dizer". Deve ter sido erro de digitação.