segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ninguém está impune

De repente ele percebeu que teria de fazer alguma coisa. Não sabia o quê. Mas sentia, sabia, enfim, tinha em si a certeza de que algo teria de acontecer.

Por que ele tinha querido? Por que tinha esperado o pacote? Podia ter ido embora, podia nem ter ligado. Mas não. Ficou ali, esperando a entrega. Ela veio e agora ele não sabia o que fazer com aquele pacote enorme nas mãos. Dar a quem? Por quê? Pra quê?

O que é que se faz, ele se perguntava, quando se quer tanto alguém, mas tanto, mas tanto, que tudo se coloca num único recipiente? E aí, numa bela tarde você recebe de volta o recipiente com tudo o que colocou lá dentro. Tudo meio apodrecido, rançoso.

Cá estava ele, com o cheiro de ranço e todas aquelas coisas mofadas amontoadas no pacote. Jogar fora não podia. Não ia conseguir. Eram suas coisas, boa parte do que ele era estava ali. Mas não poderiam ser utilizadas de novo, afinal, já tinham tido seu destino. Por que ele tinha esperado, meu Deus?

Antes tivesse ido e nem sabido o fim que o pacote levaria. Assim teria a ilusão de que tudo teria sido usado, sorvido, engolido e que ele não teria, agora, de pensar num destino digno – que, na verdade, não existia – para aquilo que um dia havia sido o melhor que ele podia dar, mas que, hoje, não passava de lixo inorgânico.

20/10/2008

Um comentário:

Silvio Luiz Miranda disse...

Nossa! Assim você vira Lady Bayron, mulher de Lord Byron.